Fernanda foi a primeira a deslizar o pequeno corpinho por baixo da roleta. Não tão fácil Fernando foi na sequência. A camisa arrastou no chão e se ergueu empoeirada atrás da catraca como um espanto. Antes de sair de casa, Sirlene sempre repassa aos filhos como se comportarem no passeio, explicava tudo o que fariam do portão pra fora e atravessar a catraca sem raspar a camisa no chão do ônibus era uma dessas advertências. O rosto do menino dentro da camisa se contorceu em frustração, engoliu o choro sem sentido, um crime que não quisera e mesmo assim pego em flagrante. Sabia que sua mãe irava quando envergonhada em público e a impressão era a de que aquele ônibus abarrotado de gente inteiro o reprimia com os olhos. Mesmo que a mãe não lhe dissesse nada o terror continuaria em forma de suspeita, o esculacho nunca vinha publicamente, mas particular em casa com o fio do ferro. Na verdade Sirlene percebeu o sofrimento de nandinho, mas não o consolou. Seus pensamentos embaralharam-se com o susto de que o muleque cresceu demais e, provavelmente daquele dia em diante todo o transporte que usassem teria que pagar dobrado. Fernandinha bronquejou com o irmão e o ajudou, com tapinhas, a limpar a camisa de passeio, uma das poucas que não eram reuso. Sirlene pagou a passagem e passou a catraca, também com dificuldade porque carregava uma bolsa pesada e um bebe de colo. Um casal jovem levantou para a família sentar, até os maiores ganharam um acento para dividir. Sirlene agradeceu cabisbaixa. Só pra chegar na Zona Sul, três passagens, pra voltar mais três, seis, agora doze. Antes dezessete e quarenta, agora trinta e quatro e oitenta.
-Puta que pariu deus pai amado!
O dinheiro era contado. Fez um plano, subtraiu um ônibus. Mudou seu caminho inteiro. Conhecia bem as linhas por já ter trabalhado na cidade toda, mas essas passagens quem pagava eram as patroas. A cabeça latejava só em imaginar o que estava por vir, pensava no carrinho de bebe que não podia estar contigo. Atravessando uns quatro km de centro velho conseguiria um 509 que passaria num bairro próximo à sua mãe, Dona Iracema. Sirlene tentou não antecipar a exaustão, que caísse de uma vez só sobre o corpo feito uma porrada na nuca, não como uma tortura nazista. Funcionava diariamente no trampo como faxineira, e assim é que dava conta do serviço, sua preocupação estava toda com os filhos. A memória revoltava-se. Da última diária só recebeu uma metade que foi adoçada pela patroa com a desculpa de que os negócios da família não iam bem. *Sir, fico sem jeito de ficar te devendo, sei como é difícil não receber tudo, vários clientes não nos pagaram essa semana*. *Filha da puta! Impossível saber o que é isso, eles tem carro*.
- Dá a mão um pro otro.
Visão assustadora até para crianças imaginativas como nandinha e nandinho. Ruas gigantescas com fluxos intermináveis de máquinas frustradas. Calçadas pequenas e sem espaços, pessoas se tocando com os ombros sem se olharem, camelôs gritando sobre brinquedos falsificados, pessoas caídas mostrando as feridas abertas para receberem trocados, crianças vestidas de roupas rasgadas e com sangue nos olhos. Essas crianças era o que mais amedrontava os pequenos porque eram feitas como nossos maiores medos, de um espelho negro. Nandinha pensou *será que olham pra gente como se fossemos ricos? Até objetos bonitos ou comidas cheirosas lhe eram sôfregas, conheciam as regras de comportamento da mãe, proibido pedir. Sabiam exatamente o que poderiam ou não dizer.
- Olha a marabraz, que nem a da tv! O ponto frio!
- Mãe, olha essa igreja.
- Essa é católica menina, é feia!
- Um mágico! A gente pode ver?
Dez minutos de magia para os menores e descanso a guerreira, grande ideia. A pequena Luiza que ainda não havia parado de se revirar no colo da mãe foi ao chão. Os outros dois sentaram como indinhos e não se decepcionaram com o que viram. Um homem muito alegre com o rosto pintado mais para Drag do que para palhaço, de sotaque engraçado para as crianças, jogava uma moeda invisível ao alto e a pegava numa lata de nescau. Só dava para ouvir o barulho do encontro da lata com a moeda. Cada vez que jogava e pegava ouvia-se uma quantidade maior de moedas dentro da lata, mas quando o mágico a mostrava a platéia um frasco vazio e barulhento. Crianças ao delírio, adultos ao deslumbre. Quando o artista começou a passar seu chapéu os próprios pequenos se ajeitaram num movimento de retirada entendo que o dinheiro era contado e a mãe não precisava dizer que não poderia colaborar com o mágico.
Mais oito quarteirões e o Sol sensibilizava a pele, alterou o humor das crianças que já não conversavam mais. Sirlene parecia entorpecida, carregada por algum espírito, nem pensava mais na força empregada, parou de trocar o bebe de braços como se o corpinho de rosto encoberto por uma fralda estivesse grudado ao seu corpo.
- Mãe, to com sede!
- Eu também.
Outra boa ideia. Pararam na primeira padaria para pedir água. Padaria burguesa, Café com flores. Sentiu-se mal uma primeira vez pelo ambiente, refinado demais para sua origem, odiava aqueles lugares desde a infância quando trabalhou limpando cozinha e lavando pratos num restaurante italiano. Abusada pelos patrões e vista como coitada pelos clientes. Mal novamente, Agora literal, a sombra teve um efeito avesso em Sirlene. Ao invés de refrescá-la, derrubou-a numa queda de pressão. Recobrou a consciência em uma cadeira, cercada de rostos brancos e engomados com monange.
- Cadê meus filhos?
- Tamo aqui! Disseram duas vozes vindas de baixo.
- Cade Luizinha? Ela ta bem? Eu cai com ela?
- Não moça, você pôs o bebe no balcão antes de desmaiar. Não se lembra?
- Não.
- Quer que chame alguém? O pai?
*Chamar quem? Só se for Deus Pai pra me buscar*
- Não precisa, já estou melhor. Muito obrigada a todos vocês.
A vergonha de Sirlene a energizou. Odiava favores. Um bacana ofereceu a vitrine para às crianças, Sirelene negou por elas. *eles pensam que somos mendigos e adoram caridade pública para usarem de enfeite ao lado de seu relógio de ouro*. Virou cinco copos dagua e saiu às pressas de lá puxando suas crias.
*Chamar o pai? que vida fácil tem as pessoas* Matutava entre o abarrotamento humano. Antonio arrumou um emprego numa cidade vizinha logo após a noticia de Luiza, então Sirlene o avisou que se fosse não precisaria mais voltar. *Uma das melhores desgraças que aconteceu na minha vida*, sempre ironizava quando se punha a pensar no assunto. Agora Antonio envia mensalmente uma pensão para cada filho, apesar de que esse mês mandou apenas um terço do valor, *está dificil*, explicou. *Mais um mês e eu chamo a policia praquele filha da puta*. Sua coxa e seu quadril ainda doíam da queda na padaria, mesmo assim era como massagem comparada as marcas da época de Antonio.
Viram mais cinco quarteirões. Por duas vezes a Matriarca sentiu-se perseguida, em uma delas realmente estava. *homem nenhum presta*. As crianças começaram e não pararam uma reclamação massante sobre cansaço. o bebe chorou, chorou e chorou até, por fim, avistarem o maravilhoso ponto de ônibus. Não demorou muito até o 509 vir, aquele pedaço de ferro gigante era do mesmo tamanho do alívio que trazia.
Fernando desacreditava da cena vista. Sua mãe lhe pagando a passagem. Ele atravessando sozinho por dentro da catraca. Suas próprias mãos fazendo-a girar. Desconfiado, encarou o cobrador com um ar de responsabilidade. Sentiu-se importante. Quase um homem feito. Mesmo assim, de peito estufado no corredor movediço, não foi invejado pela irmã como pensou que seria. Estavam todos felizes por estarem no onibus. Novamente conseguiram assento juntos.
Mesmo descendo não tão perto da casa de sua mãe a mulher já se sentia em casa. Crescera andando por aquela região. Conhecia ali antes de ser ruas esburacadas, desde quando era só favela. Desceu as ruas divertindo-se na cabeça. Lembrou das queimadas, bandeiradas, pega-pega, bailes e namorados. As crianças iam olhando pra cima distraídos com as pipas e torcendo para despencarem em seus colos. Subiram numa pequena viela de terra cercada de casas feitas basicamente de maderite, brasilit e lona preta. Desviavam do esgoto que escorria pela escada improvisada e miravam para pisar apenas nos pedaços de pedras bem firmes no chão. Entraram por mais dois corredores com até chegar na área mais antiga do morro.
Finalmente a casa de Dona Iracema. Uma série de tijolos chapiscados, uma basculante com dois vidros quebrados substituidos por papelão encapado de saco de lixo e uma porta de madeira lisa pintada de vermelho. Nanda nem bateu, arreganhou a porta e entrou correndo em direção à senhora que encarava a pia.
- Bença vó. To cansada!
- Bença vó. Já to pagando minha passagem.
- Achei que vocês não vinham mais. Disse a mulher de cabelo raspado branco e poucos dentes, orelhas caídas com um pingente dourado, vestido azul com flores amarelas, um rosto dobrado e manchado pelo tempo de serviço, o que embelezavam ainda mais o sorriso que lhe estampava a cara. É diferente dum gesto simples de sorrir, diferente de uma ação condescendente, aquele sorriso é a essência de qualquer revolução.
- Nossa Senhora. Benção mãe. Vixi. Uma looonga história. Desabando no sofá.
Sentou a mesa e se deliciou com tempero da mãe enquanto contava a história dum ponto de vista cômico. Ainda teriam que falar sério sobre seu irmão. Viciado em drogas que sugava todo o dinheiro e vida que sobravam a dona Iracema. Os filhos queriam interná-lo, o que era a morte para a pobre senhora. Sempre acabava com raiva da filha ou quem quer que fosse que falasse mal de Cicero.
- Olha Sirlene. Não preparei comida pra filha minha me dizer como criar filho meu. Criei cinco.
- Um ta fumando crac e vai morrer se a gente não fizer nada. Pensa que eu não amo ele?
- Um drogado e uma vagabunda.
Por mais que a conversa progredisse Dona Iracema jamais aceitaria aquelas palavras que a separariam do filho. Não por falta de entendimento, mas porque a balança da justiça dela equilibrava diferente mesmo. Não importa o que Cicero levasse dela, ele não poderia prejudicá-la mais do que sua ausência por razão tão dramática. Não poderia mais lhe fazer comida ou lhe curar os machucados. Iracema contra-argumentava com o insucesso da carreira de esposa da filha. Segurava seu coração com a mão esquerda e o socava com a direita.
- A senhora é muito da mal agredecida. Ô mulherzinha ruim! A gente tenta ajudar e tem que escutar desaforo da própria mãe.
Ajuntou tudo o que levou, tirou Luiza do colo da avó e atravessou a porta sem se despedir. As crianças estavam brincando de bola com a mulecada. Também eram familiarizados com o pessoal dali.
- Vamo embora.
Os dois perceberam algo de errado na pressa da mãe. Não questionaram, sabiam que só podia ser briga entre ela e a avó. Conheciam a cena. *Sabia*, pensou Fernanda insatisfeita acompanhando a a mãe. Nandinho pediu desculpas aos garotos por desfazer-lhes o golzinho de chinelo e saiu correndo até alcançar a mão direita de Sirlene.
- Mãe, to muito cansado para andar tudo de novo.
- Vamo pegar três ônibus e por favor voces dois, quietos.
- Eu vou passar por baixo da roleta?
- Sim. Sua camisa já ta toda suja mesmo.
- Mas já sou grande e olha, a avó me deu dinheiro.
Sirlene olhou os 75 centavos de moedas que o filho lhe erguia aos olhos, então agachou a altura de Fernando olhando-o nos olhos e o apertando a mão.
- Grande? Você faz ideia do que é ser grande muleque? Grande bosta você é muleque! VOCÊ É UMA CRIANÇA.