-->
Dois pombos na calçada, para mim,
Igual nada na calçada,
E lá estavam os dois, parados.
Juntos somente por uma bolacha,
Muito grande para uma pomba comer só,
E boa demais para ser confiada a
qualquer um,
Mas estavam lá, os dois
Por convenção do momento.
Antes disso não eram nada,
Não sem bolacha,
No máximo lembranças vagas.
Não haviam subido aos mesmos arranha
céus
Pela manha quando sufocados por um
tédio banal.
Mesmo que vistassem com a mesma plenitude do espírito
Aquele mar aberto de casas aleatórias,
Uma pomba mirava o sul e a outra mirava
o norte.
Não eram nada sem a bolacha.
Mesmo que paralelas,
Não havia sido, também, as mesmas
ruas
Onde desesperadas por alimento bicavam
migalhas
Que as pessoas jogavam ou deixavam cair
pelas calçadas,
Pelas ruas que ninguém as enxergava
com relevância,
Pois as pombas não percebem que
migalhas são restos.
No centro havia poucas árvores com
boas sombras
E durante a manhã, ficar na sombra foi
o que mais fizeram,
E ainda assim suas vistas não haviam cruzado,
Não naquela manha,
Já fazia alguns dias,
Até findar-se numa bolacha,
Numa sorte do espaço-tempo
Que sempre se repete por essa esquinas.
Aliás, neste espaço todo tempo é
mera sorte.
Tão plena a sensação de repartir
delicias
Com um rosto conhecido,
Assim como colhedora era sensação
pela manhã
Dos ventos seguros nos topos dos
prédios rotineiros.
Das sombras cotidianas,
Embaixo das árvores, que guardam um
bom repouso.
Do passo a passo e das migalhas
distraídas,
Pelas ruas que de tão conhecidas
Confia a liberdade de agir por impulso
E voar alto também enquanto anda
desrumado e sonolento pelas calçadas,
Preenchendo o que resta da sorte e do
espaço-tempo.
Tão bom assim um rosto conhecido,
semelhante.
Findou-se
Enquanto ela bicava a bolacha
O pombo a olhava
Pensava em como a pomba apreciaria as
sombras de seus dias
Se o acompanhasse qualquer hora.
Enquanto a pomba o olhava
Imaginava o quão ele se satisfaria com
as vistas voltadas ao sul.
Quando se olhavam
Ele admirava as ruas por onde ela
andava,
A coragem de enfrentar ruas com grande movimento.
E ela se impressionava com as penas
dele.
Não era sempre, mas naquele dia, as
penas estavam brilhosas
E realmente era uma linda distração.
Acabou os últimos farelos,
Voltando eles dois a serem nada,
Talvez farelos que o bico não alcança,
Caído no vão da memória.
Sem a bolacha,
A obsessão presencial por algo comum
Para dar sentido àquela convivência
Tornou os pombos constrangedores.
Tentavam achar parte de si no outro
E o outro buscava outras partes de si.
Mas adeus é sempre adeus,
Sempre cala fundo, bem se entende e
cessa o constrangimento.
As costas viram-se, mas fica a
admiração.
Voltaram para suas rotinas,
Mais uma vez para suas seguranças
Onde conseguem ser totalmente
compreendidos
Pelo oco das coisas,
Pois é somente o vazio que pode
preencher completamente
Todas as abstrações.
Indigna-me a escrotidão do pombo
Acreditar que aquela bolacha
Mudou ou permitiu alguma coisa.
Indigna-me a escrotidão do pombo
Por não entender que ele é só a
droga de um pombo
E não importa o quão longe for
Qualquer outro pombo no mundo pode
senti-lo,
Simplesmente por ser a mesma essência.
Não ter essa calma no adeus
Para perceber que todos são facilmente
compreensíveis.
Medo de dizerem e serem mal
compreendidos,
mas dizem da bolacha,
Dizem apenas sobre o que sempre é bom.
Pra que tanta insegurança?
Indigna-me a escrotidão do pombo
Por gostar de conhecidos
Justamente por abrirem uma janela
diferente para o mundo,
E ainda assim continuam a preferir
sempre os mesmos lugares.
Tudo bem, acredito que eles consigam
carregar
Parcela disto à suas rotinas no
vago farelo da memória,
Tornando-se um forte espírito que sempre
reviva,
Todos em qualquer lugar,
Fazendo da sua rotina muitas janelas
abertas,
E isto venha a satisfazer o correr da
vida.
Talvez eu que não entenda,
Se entendo não me conformo.
Pombos podem fazer o quiserem
E insistem em nada fazer
Para serem, da melhor forma,
insignificantes.
Pombos não são nada
Se forem, são escrotos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário