Marcadores

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Mundo livre para mim também

-->
Era menino, logo
Não convinha, a mim, o que dizer,
Pois era muito menino, confia,
Será homem logo,
E jogavam-lo no quintal para as brincadeiras
Como a noite se desfaz das vestes para se envaidecer.

Prenda seu filho,
Enforque-o no quintal
Mãe limpe ele,
Pai seja patrão, padre e policial.
Era o que as novelas mostravam,
E eu também via mesmo sem nada a ver.

Até um dia, fatídico dia.
Até um cheiro, fatídico cheiro
Mais antigo que qualquer lei,
Vinha de trás do muro,
E o pescoço me ajudava a espiar o cheiro
Como se o pensamento me desse forças.
Taporra, era a maconha.
E que ar é esse que nunca respirei?
Oras, e estes risos. São risos da desgraça?
Mas a desgraça não tem graça.
Nem mesmo eram tão feios quanto eu esperava,
Eu nem esperava que já os conhecia.
E a consciência me denunciava só por eu não denunciar.
Calei-me.

Tão rápido quanto um único dia,
Amanheci num mundo em combustão.
De quarteirão em quarteirão
Quem consumia se entregava a mim pelo odor.
E tive que passar por reenquadro dos perfis confiáveis.
E agora, quem me serve de representação?
Das boas faço ruins e das ruins tomo como verdade?
Poucos eram os perfis que se encaixavam
Nas descrições do imaginário
Que a cada hora ganhava mais cor.
E de forma natural não consegui perder a minha antiga empatia.

Do cheiro fiz informação,
Daquelas que há reflexão antes de passar ao papel,
Mas, sinceramente, pouco refleti para jogá-la no papel,
Enrolar e acender.

Coloquei a maconha em meu cardápio
No potinho dos temperos
Porque aprecio seu gosto,
Da vida com seu gosto.
Particularmente, eu gosto.

Me joguei para trás do muro
Que divide o que é lei
Realidade e realização.

Em minha vida banal
A maconha é banal
Como tudo também me é banal
E ainda assim viciante.

Em minha vida selvagem
A maconha é selvagem
Porque fizeram um muro
E chamaram de morro. Disseram
“Do muro para lá é selva,
Do muro para cá é civilização”

Mas sonho,
Em desligar a TV
Construir uma casa 
Aqui no meio desse mar de gente.
E nela não terá a droga de um muro,
E nela terei meu filho a brincar,
Comigo e com quem mais desejar.
Respirando de um mesmo ar. Para mim,
Nem mais, nem menos,
Serão ares de satisfação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário