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terça-feira, 27 de maio de 2014

Timeline

Por acaso, passaste ainda menina,
Num tempo que era nosso,
Sequestrando a minha retina
Sem o menor propósito
De voltar um dia a ser minha
Como era no tempo da foto.

Em sua imagem a sorrir
Eu era margem de sua alegria
Que por falha da engrenagem
Não mostrou que eu existia

Fato não prova nada,
Eu nem estava na foto.
Estava na data.
Eu não estava na festa,
Não sei onde estava
Mas, pela hora, te amava
Será que na foto me falta?

Fixei-me numa quase fotonovela,
Não expressão da arte fotogênica contemporânea
Apenas, lembranças da minha cela
Ainda não havia a sociabilidade instantânea
Hoje em dia, muito pouco a foto revela
Além da ansiedade espontânea.

Quem vê fotos enxerga também o implícito e o interno
E qualquer foto naquela altura te trará aqui.
Fotos são insuficientes para dizer o que deixa de eterno.
Pois sei que eu também estava, e muito, ali
Presente no SMS do celular, na carteira ou no final do caderno

Talvez eu exista mais naquela foto que nem sequer saí

terça-feira, 20 de maio de 2014

Os pretos pobres do século XXI

Os pretos pobres estão por ali
A lavar o chão por pão
A saquear os bancos dos brancos

Os pretos pobres estão por ai
Sábios, diretos em seus direitos
Sóbrios a ignorar a ignorância

Os pretos pobres estão por aqui
A respirar nosso ar envenenado
A desejar o ouro do tolo

Os pretos pobres estão lá
Candomblé, Quimbanda e Umbanda
A implorar prum Jesus numa cruz

Os pretos pobres estão
A cantar e encantar com seu brilho
A redobrar seu penar em pensar no seu filho

Os pretos pobres estão sobrevivendo
Com pensamento comum e incomum
À custa duma não ajuda enjoada

Os pretos pobres estão nos piores lugares que alguém poderia estar
Adoecido esquecido em cima duma maca

Saudável agradável e útil atrás da placa



quinta-feira, 8 de maio de 2014

Duelo


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Seu ego
Gritava algo
Enganoso

Um eco,
Em mim tiro certo
Quando Lerdo e oco

A seco
Chutou-me no saco
E na alma um soco

Sem elo
Nos tornamos um paralelo
Onde um vive do outro.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Basecamente


Feito quem não pôde concluir diferente,
Reconheço, este, meu lugar,
Raso e longínquo,
Do qual me sirvo e a quem mais serve,
Como única maneira de contentamento.

Admito
A felicidade congênita de ser vivo
Com o infortúnio contingente de viver
Em formato de solo pisado.

Feito o chão que sustenta o corpo,
Formo, junto a milhões de irmãos,
Um corredor imóvel a sustentar
Uma passeada esnobe da classe operante.
Pisam-me os quem tem movimentos.

Porém, da ação pouco possível
Não me abstenho.
Difiro-me das calçadas de centro,
Planejadas para serem bonitas e resistentes,
Que não sentem, na pele, a pressa dos sossegados e,
Caso se rompam, são facilmente substituíveis.
Ou também das ruas periféricas,
Mal-feitas para durar sub passos indiferentes.
Construídas para quem não anda.

Não que eu seja lá grande coisa,
Mas, ao menos, 
Imenso dentro do que posso ser.

Sou chão poeiroso
Que prefere a beira de estrada.
Refeito a cada vento,
Traiçoeiro em tempestades,
Que encarde os sapatos brancos e,
Apesar de ser atravessado contra a vontade,
Antes, tomam-lhe tento.

Para isto, basta a naturalidade em ser.
Inspirar como se tragasse ar
E soltá-lo para continuar bem e
Jamais creditar à vida
Algo mais intenso que este compasso.
Por vida, é o máximo que posso ser.
Igualdade, a morte é a única quem dará.
A concepção é uma das poucas largas escolhas.

Não se afobe, precioso pequenino.
Quanto menor for,
Maior será o infinito
A permanecer distante.
Se eu fosse céu,
Que céu teria eu?