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terça-feira, 15 de julho de 2014

"Fácil como mentir"

A solidão lhe apavora.
O álibi perfeito da tristeza
Para matar certezas.
Diga que o tiro veio de fora.

Demonstre surpresa,
Com balas de cereja guardadas
Revele as intenções lapidadas
Sem esvaziar a cerveja.

Imite o movimento que dá vida ao rosto
Pessoas são músicas, filmes, jogos, livros,
Boates, boatos, setores, cozinhas, salas e vícios.
Um buque enquanto examino seu gosto.

Poesia moderna racha a conta
Então descem a rua feito rima
Acompanham-se em cada esquina
Beleza ouvida ao unir de pontas

O toque suave das bocas espanta os olhares pesados
Cada mão cria dez dedos e os pés já não chutam pedras
É anestesiado pela fala de sua nova coberta
E a avenida que passa já não é mais como tem passado

Esforce-se o máximo antes de dormir,
No dia seguinte amara, mas demorará admitir
Se é solidão que lhe apavora
Pode ficar tranqüilo agora.
Conseguiu, pelo jeito mais fácil, mudar a realidade

Sem precisar, sequer, mudar de cidade.

domingo, 13 de julho de 2014

Desintenção

Enquanto corria de carro,
Esperando a gente chegar,
Perseguindo o horizonte num traço cinza,
Com a licença das fazendas,
Pasto gigante,
Contava, um a um, os bois comendo o mato.
Ou fribois, coletivo patenteado.
Talvez essas contagens transeuntes
Seja o único momento individual
Que este beef em engorda tenha
Antes de arder e escorrer no carvão.
Bichos tão entediantes quanto meu tédio.  
Restavam olhos, orelhas,
E um rabo chacoalhando,
Chicoteando as moscas que gostam do cheiro de bosta.
 Por isso, não consegui vê-los nitidamente,
Não no sentido “sinônimo de qualidade” da palavra.

De quantos metros de chão eu preciso
Para fazer o que quiser de um vício epidêmico?
Com quantos segundos no intervalo da novela
Se inventa uma tendência?
Quanto custa
Ganhar dinheiro de todo mundo?
Aposto que esses bois se perguntam a mesma coisa,
Mascando e contando os carros.

Bicho sem sorte.
Melhor é aqui dentro
Que troca a música e chega a algum lugar.
Chego,
Rendido de fome e
Após esperar mais de 20 minutos na fila da engorda
Pergunto ao carniceiro:
"O que tem bom e barato pra churrasco?
Friboi não, muito caro e esse bichos são todos iguais."
O segredo é o tempero e a mão do churrasqueiro.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Dos dias que saem comigo para não se encontrarem

Só preciso ficar qualquer coisa de feliz
Porque irão bater na porta e vão me ligar também
E será mais fácil ter um sorriso do que uma explicação.
Meio sorriso ta mais que bom.

Entenderam tanto na última semana
Que quando olham no fundo de qualquer gaveta
Encontram um pedaço, bem matado, do próprio ego.
Acham graça, estão vivos e endireitaram o arco que lhe formava as costas.
Mais fortes do que nunca saem pra comemorar a nova fronte.
A cidade ainda é a mesma, sem novidade
Os amigos também são os mesmos, quem sabe alguma?
Meio sorriso ta mais que bom.

-O que você vai fazer?
-Desenrola
-Vamos tomar uma?
-Não sei. To meio quebrado.
-De grana?
-Aham, ta foda.
-Eu pago hoje.
-Será?
-Lógico.
-Então vamos.
É bom ver essa gente feliz,
Empolgadas para confessar seus planos,
Jorrando libido e que socariam a própria vó apenas para me impressionar.
Não preciso de muitos copos, se isso deixá-los felizes,
Também socaria a velha.
Só querem extravasar para sentirem-se livres, finalmente.
Isso, claro, quando não vêm depressivos.
Falando que são vilões e que fazem tudo errado.
De certo não são vilões, não tem um papel tão importante assim.
Para usar o passado, tem que usá-lo por inteiro,
As ruas, as escolas, os brinquedos, os botecos em que o pai caía,
Em que o avo caía e em que o tio caía mais ainda.
Onde te trancavam e como faziam isso?
Não deve usar sua memória como um holofote ligado em você.
Como saberão de onde veio essa merda de mentalidade?
A gente não conhece ninguém
Enquanto desconhece-lhes seus pais.
A ficha da policia não basta, com as leis que temos é óbvio.
Mas quem se importa?
Nunca perguntarei nada disso pra ninguém.
Meio sorriso ta mais que bom.

E voltam renovados para casa,
Cheirando a cerveja e cigarro, que não foram nada mal.
Nossa maneira de dar chance a vida é
Sair do claustro cada vez mais fortes e conseguir se divertir.
A jaula é solitária, tediosa, complexa, sombria 
Que um insight é uma alegria danada.
Fico qualquer coisa de feliz.
Difícil se explicar sóbrio e fico incompreensível bêbado.
Será que um dia terei certeza de alguma coisa?
Melhor segurar a língua para não pisar nela.

Meio sorriso ta mais que bom.