Marcadores

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O velho e a praça

Um velho senta a praça
Sem intenção alguma.
Cospe contra o recuo
Buscando a terra,
Fazendo mais que todos.
Transeuntes relevam
Sua mão apoiada no saco
Como se esquivassem de algum constrangimento.
Então o velho coça mais para não poupá-los.

O velho sabe muito
E ainda assim repousa a carcaça
sobre a pedra empoeirada.
Os pombos não lhe fazem mal,
Recebem o miolo do pão
E pode-se observar o chão virar aves.
Passa o jornal sem prender os olhos em uma única publicidade,
Mesmo estas preenchendo o maior conteúdo.
Nunca precisou dessas novidades importantes
Para estar sentado ali quando possuído pela vontade.
Lê, sem interesse, somente os jovens
Renovando o discurso absurdo dos antigos
E depois os dobra para sempre.
Quem aponta num lado da praça
Demora cerca de 30 segundos
Para sumir pelo outro canto
Confirmando sua teoria novamente,
As pessoas não mudaram
E a novidade é um delírio.

Um velho amigo se aproxima
Com peças de damas dentro de uma sacola.
O lírio do canteiro perde a atenção para seu bom.
As mãos trêmulas do adversário dão início ao jogo,
Enquanto, com naturalidade ele contempla, no amigo,
Os mesmos efeitos que o tempo o resignara.
"Ninguém é podre como nós atoa haha
Quantas loucuras esse porco enrugado
Já não promoveu num único impulso?"
Linda é a pessoa que nos reflete e ainda sorri.
A conversa é longa.
O tempo é contado de uma forma
Mais lenta e menos violenta
Do que realmente age.
Não importa,
Perderam a pressa que tiveram
E que tanto desfoca a praça.

Calmamente o jogo se encerra
E ele sente sua primeira real necessidade do dia,
Alimentar-se. Então,
Parte por entre a confusão coletiva.
Uma moça, a mais apressada, tromba-lhe
E pede desculpas voltando a acelerar.
O velho aceita com um gesto, mas, no íntimo
Gostaria de dar um conselho a ela
"Que não existe necessidades estáveis
E o tempo sempre correrá feito inimigo.
Avisá-la que lhe resta muita vida
Para ficar circuitando em praças
Até criar uma empatia involuntária por elas,
Até congelar na metade do percurso,
Até perceber toda indiferença desse repetido ato,
Até esperar ser seu único movimento.
Fuja menina, fuja a passos velozes,
Mas não para a mesma direção que corre essa gente."

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

desiquilíbrio entre dia e noite



O silêncio não pairou sobre o fim do dia,
Nem cá, nem lá.
Restando corpo e tempo em desacelero
Encolhido sobre uma esfera estranha
Da qual tanto recuso durante a postura reta.
O caos é uma pedra incandecente
Mantida entre olhos e pálpebras
Vindo a refletir a incompreensibilidade sempre as escuras,
Deixando-me sem dormir.
Se é mesmo verdade que espíritos são amaldiçoados
Ao deixarem algo em vida por fazer,
Tendo assim que permanecer a assombrar uma mesma casa
Pelo resto de muito tempo,
Essa sensação só pode ser um sinal.
Meu espírito se contorcendo e gritando
"Não me deixe aqui pela eternidade,
Não com essa imagem deszelada,
Levante, peça desculpa ou a mande ao
Raio que o parta.
Vista a dignidade também dentro de casa".
Fico com realidade macia da minha coberta,
Permaneço com essa azia, tal descoberta
Que há de existir uma questão para eu decifrar,
Salvar o mundo e finalmente dormir.
Reviro-me como se a resposta
Fosse descolar da mente e rolar ao colo.
Claro que não rola.
A auto referencia é o pai da mentira,
Ora, então cade o diabo desta parábola?
Alguém faça o favor de receber as minhas culpas
E me deixar dormir.
Vizinha? Chefe? Presidente? Adolf Hitler?
Neoliberalismo? Funk Ostentação?
Vinde a mim receber vossos quinhões.
Não quero levantar mais e ter ao alcance
Apenas um copo d'água gelado
ou esses pontos verdes para bater papo.
Nem dedo ou alma suportam mais
Conversar com o editor de texto.
Até a TV que em muitos repousos me guardara
Já não passa duma maldita trombeta do apocalipse
A me incomodar também.
A propaganda anuncia que o mundo continuará desonesto
Após o Jô Soares.
Confortável como numa cadeira elétrica,
Numa espera ansiosa,
Sabendo que o tempo não resolve nada,
Porque amanha virá outra noite dessas
Se eu não tomar alguma previdência
De promover a paz mundial ou
Conseguir logo uma maneira de me entorpecer.
Com um pouco mais de sorte isto não seria um quarto,
Seria um bar
E teria um velho engraçado a me desentediar
Com sua esperança alheia,
Uma menina descontente com a atitude
Dos tiranos e
Meus amigos tocando violão
Preparando-se para mais um dia de sonhos.
Mas não, estou só e sem sono algum
Pensando no que será que eu deveria pensar
Para me preencher de harmonia.
Só nesta casa existem seis quartos
Quem se conformar por ultimo tranca as portas e apaga as luzes.
Por fim, também é justo.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Da vontade de viajar sem bagagens

Queria amor,
Não amá-la.

Sim à moça abstrata,
Preencha-me da força animosa.

Sem fato que saudade distorça
Ou trato que palavra recorra.

Queria amor,
Não a mala.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Essa poesia é sua amiga de Bar
Nas melhores e nas desgraças

É sua amiga no Ar
Do descrito ao que lhe transpassa

É sua amiga de Mar
Juntos, águas fundas passam a águas rasas

Essa poesia é sua amiga de Lar
Assim como tu é amigo da casa.