Um velho senta a praça
Sem intenção alguma.
Cospe contra o recuo
Buscando a terra,
Fazendo mais que todos.
Transeuntes relevam
Sua mão apoiada no saco
Como se esquivassem de algum constrangimento.
Então o velho coça mais para não poupá-los.
O velho sabe muito
E ainda assim repousa a carcaça
sobre a pedra empoeirada.
Os pombos não lhe fazem mal,
Recebem o miolo do pão
E pode-se observar o chão virar aves.
Passa o jornal sem prender os olhos em uma única publicidade,
Mesmo estas preenchendo o maior conteúdo.
Nunca precisou dessas novidades importantes
Para estar sentado ali quando possuído pela vontade.
Lê, sem interesse, somente os jovens
Renovando o discurso absurdo dos antigos
E depois os dobra para sempre.
Quem aponta num lado da praça
Demora cerca de 30 segundos
Para sumir pelo outro canto
Confirmando sua teoria novamente,
As pessoas não mudaram
E a novidade é um delírio.
Um velho amigo se aproxima
Com peças de damas dentro de uma sacola.
O lírio do canteiro perde a atenção para seu bom.
As mãos trêmulas do adversário dão início ao jogo,
Enquanto, com naturalidade ele contempla, no amigo,
Os mesmos efeitos que o tempo o resignara.
"Ninguém é podre como nós atoa haha
Quantas loucuras esse porco enrugado
Já não promoveu num único impulso?"
Linda é a pessoa que nos reflete e ainda sorri.
A conversa é longa.
O tempo é contado de uma forma
Mais lenta e menos violenta
Do que realmente age.
Não importa,
Perderam a pressa que tiveram
E que tanto desfoca a praça.
Calmamente o jogo se encerra
E ele sente sua primeira real necessidade do dia,
Alimentar-se. Então,
Parte por entre a confusão coletiva.
Uma moça, a mais apressada, tromba-lhe
E pede desculpas voltando a acelerar.
O velho aceita com um gesto, mas, no íntimo
Gostaria de dar um conselho a ela
"Que não existe necessidades estáveis
E o tempo sempre correrá feito inimigo.
Avisá-la que lhe resta muita vida
Para ficar circuitando em praças
Até criar uma empatia involuntária por elas,
Até congelar na metade do percurso,
Até perceber toda indiferença desse repetido ato,
Até esperar ser seu único movimento.
Fuja menina, fuja a passos velozes,
Mas não para a mesma direção que corre essa gente."
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