O coração acelerou,
Era como se parasse.
Qual a diferença do susto para surpresa?
Num está tudo bem,
Noutro está tão melhor.
Digerindo a janta num canto da casa
Corpos desfalecem de ingratidão,
E ficamos tristes sem nem saber porque.
O que é que temos? Se
Eu estava bem vestido,
Na garagem um carro,
No celular alguns números
E minha cabeça sei lá,
Tipo normal, tipo morna.
De repente acontece,
Feito a perdição dum barco na tempestade
Que só recebe as luzes de raios e conselhos de trovões,
Tipo isso, tipo lapso,
Fechou o tempo no quarto.
Por não achar no que pensar, no que pisar,
Perdi o chão e todos que me habitavam foram com ele,
Dobrando a solidão, excedendo-a,
Causando efeitos de embriaguez.
Papo fiado, conversa de bar.
No balcão da cela
Um espírito míope e onipresente
Sussurra que minha presença é essencial
Nos outros, no mundo, no tempo, no etc,
Longe.
A retórica também é sobre mim.
Desabafo o sentimento que acabo de inventar
Até acreditar, de todo coração recém torcido,
Que não suporto mais essa agonia d'algo.
Esse auto-flagelo em silêncio.
Mas, chorar e a mãe não vir desperta.
Afinal, está tudo bem.
Fazendo o mesmo e o oposto que viver
O corpo escorado na mesa bonita continua saudável.
Foi só um susto que queria ser surpresa.
Foi só cansaço. Foi só preguiça.
Foi só mais de tempo perdido.
Foi só falta de imaginação. Sei lá.
Não foi nada.
Tipo um filme ruim do início ao fim
Que nos deixa desgostosos de ver TV
E basta desligá-la que já é um alívio danado.
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