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domingo, 26 de janeiro de 2014

Maturidade


Pensou que estava madura
Quando perdeu a vontade de
Voltar a ser criança.

Quando o coração opaco
Não impediu o sorriso

Na manhã de segunda
que não relutou a se levantar

No esquivo da crise

Quando se fez útil
Mesmo na merda

Pensou que estava madura
Quando notou
Quão curto eram seus braços,
Demais até para cruza-los.

Amadurecer, para ela,
Foi aceitar seu fracasso
Aceitar o fracasso de todo mundo.
Assim,
Convencera-se ser mais humana,
que amava mais.
Convencera-se até, isto, ser o único sucesso.

Tudo que plantou cresceu
Tomando seu jardim.
Se a revolta do mundo te inflamava
A paz de seu quintal lhe entorpece.
Se era fogo,
Hoje é vegetal.

Não se iluda, meu bem,
Olhe para nós dois.
Estamos aqui novamente
Pensando ser algo novo,
E somos,
Nada mudou.

A pressa lhe fez esquecer,
Mas, no tempo que resta
Finge finalmente entender com clareza.
Pensa que o mundo finalmente silenciou
Desde o dia que ficou surda.

Frangos escrotos


Ela o feriu.
Tirou toda a pena
Daquele frangalho

Depenado, dependente,
Bem não pensava
Queria sua pena de volta

Da janela eu fitava
Aquele frango pelado
Prum lado e pro outro
Com as vergonhas expostas

É ridículo que
As lágrimas dum frango
Vire goteira em minha cabeceira
Assim
Só consegue que lhe arranquem
Mais penas pelas costas

Já vi muito disso
Logo ele consegue a pena de uma galinha
Então não dormirei por mais um tempo
Porque daí ele começa a cantar,
Depois volta a ciscar.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Esperemos


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Esperemos

Há outros dias, melhores, que não têm chego,
que estão sendo feitos, ainda,
como o pão ou as cadeiras ou
As prateleiras das farmácias
Para não faltar remédios e preservativos
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
(sou eu e não sou, me entende?)
Que nunca acerta a medida exata
E vive excedendo os ingredientes,
quase iguais, mas não os mesmos.
Um descuido, um pensamento próprio e pronto
Desanda.

Não guardo nada para mim,
Vendo o produto para viver
E também já estou enjoado desse melado. (não sei como gostam dessa porcaria)
O pior,
Voltam muitas reclamações,
Até dos que rapam o fundo.
Não importa a satisfação
Querem receber pelo que pagaram.
(Queria ver se cobrasse por meu empenho, ah,
Sei lá também, se pá)

Na verdade eu queria fazer meu próprio dia.
Como quando eu fumo e preparo a janta,
Só bem depois lavo minha louça
Como quando eu acho graça da queda
Até começar doer e vir uma puta raiva
Como quando a ira cessa no banho quente
E saio andando pelado pela casa.

Porém,
Esses merdas não pagam direito seus dias,
Não podem,
Não há democracia com tanta gente esquisita.
Uns gostam de calor e outros de frio
E eu acho todos os amantes do calor um saco.
Agora mesmo
Estou torrando aqui, pelado,
Tentando dosar perfeitamente o pedido do cliente.
Caprichar é foda, chato e demorado,
Mas eu termino, tem que terminar.
Então vou descansar um pouco mais esperançoso
Esperando receber um dia justo
Feito quem espera, do correiro,
Uma encomenda
Paga com o próprio dinheiro.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Autenticidade variada


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Varrendo a calçada
Os prédios quase caem
Fumando na sacada
As ruas quase somem
Vagando no centro
as pessoas quase morrem
Dançando na festa
As neuras quase se extinguem
Num filme bom
As horas quase viram minutos
Num filme ruim
O cinema moderno quase vira luto
Erguendo as caixas
A exaustão quase vence
Recebendo salário
O mundo quase é perfeito
Interessando-me em alguém
Algumas razões quase se apagam
Desinteressado em mim
As cabeças quase são alvos
Na fila do médico
O trabalho humano quase ganha sentido
Na fila do crédito
Quase não sei porque trabalho
Lendo jornal
O mundo quase entra inteiro na minha sala
Depois, pensando sobre
Minha sala quase não existe
Com amigos brigando
A cegueira quase me toma
Com todos gritando
Quase fico mudo
Com todos cantando
Minha voz quase é a de todo mundo
Enquanto vivo
Quase morro
O que você vai continuar fazendo num segundo?

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Estacada

A quem se trai?
Traímos os outros, às vezes
Todo mundo,
O quíque da bola,
O restaurante rotineiro,
O programa predileto.
Mas egoísta que és
Jamais se trai.
Em dias voluptuosos fica vulnerável
Mais do que bradava o coração
Nos dias de certeza.
A convicção que havia desmancha
Para se refazer em cima de conseqüências. Arrepende-se
Sem se trair, ou
Como poderia não se perdoar?
A dor que tens na consciência foi premeditada
Mesmo que tenha engolido mais amargo que pensara.
Traição é a rasteira no vacilo
E não um tiro no pé.
Não se revista de sofrimento
Porque não combina com você
Desde o início soube que suas atitudes
Eram ornamentos do dia a dia.
Então deixe de lamentar
Os mesmo atos que por outras vias
Chamaria de conquistas.
Não se traí
Como poderia se esconder?
Vive a te achar cada vez mais sem graça.
Vive a te achar cada vez mais sábio.
Vive a trair sem ser culpado
E sente culpa por se trair. Não!
Culpa não há sozinho por que também não há lei.
Jamais se trai, viva
Que tu não és vilão.

“Fica tranquilo”

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A ingenuidade sempre será a maior vítima do tempo, meu amor

Por onde andas, meu amor,
Quando na intimidade de sua consciência?
Se os olhos que já me seguiram
Fogem apavorados feito nicolau.
Como se minha presença lhe afastasse a sorte.
Invejo tal sorte capaz de fugir.
Tu, tão linda, tens meu mundo de atenção
Tal astro que brilha até me cegar
E cego resta seu brilho a me queimar a visão.

Sabe,
O amor é muito complexo para decifrá-lo embriagado
Soluçando por tanto ser amado,
Você enchendo meu copo a cada instante.
Saciado a ponto de ser ingrato,
Um viciado que varia as doses da mesma coisa.
Só você notou a decadência em nosso amor.
Para mim, bebum,
Não via problema em uma felicidade desconexa.

Mas agora,
Meu peito que recebia o calor de seu sono
Esfria a cada lembrança que me vem,
E o incômodo me obriga a entender o que se foi
Para seguir em passos firmes sem cair no mesmo erro.
Confortei sem confortar,
Tornei injusta nossa relação por
Arrancar-lhe as asas para lhe por sub as minhas,
Sonhar redundante pondo paredes em nossa volta,
Colocar cozinha, sala, quartos e dois banheiros.
Chegar em casa lhe dar um beijo
E ajudar a lhe tirar da tristeza quando houver,
Quando os cachorros não tivessem o feito. E claro,
Viajar nas férias com o aperto de nossos bons empregos.
Quanto nada eu fui capaz de te oferecer.
Porque um buquê de promessas se
Apaixonei-me de imediato no impacto com
O concreto sorriso seu?

Só entendi a grandeza de nosso amor
Após estar em queda livre dentro dele.
Diferente daquele da globo as 21h
Que indecentemente lhe propus.
Não era o mais óbvio.
Foi o melhor que a incompreensão nos ofereceu
Sem segredar plenamente.
Eu, como indivíduo livre e súdito seu,
Deveria ser o primeiro a lhe incentivar ao sonho,
Ou incentivá-la a sonhar.
Tão simples quanto notar beleza nas coisas.

Hoje sei muito do que não sabia.
Entendo o bem(nãão!?) que fez ao separar-nos
E curar aquele amor doente,
Reparar todas as injustiças que me ornamentaram.

Com pesar entendo seus olhos fugitivos,
Por isto sofro além da sua falta,
Sofro sua condenação.
E como último respiro
De uma consciência amante afundada na lama
Resta imaginar, meu amor,
Por onde andas
Na intimidade de sua consciência.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Ressaca

Hoje acordei cansado de ser eu,
Caí em mim sem saber aonde caí
Tonto do tombo, incomodado com o lugar.
Sem vontade de mudar,
Sem ter o que mais mudar,
Incapaz de preservar sequer um sorriso falso.

Acordei sem saber quem era eu.
Como se tivessem me desenraizado durante o sono

Acordei sem saber o meu gosto.
Vasculhei todos os downloads de música
Mas não me encontrei,
Só achei saudades de bons amigos que dançavam lá dentro.
Então, na esperança de um insight num devaneio,
Vi um filme que me aspirava a ser,
Mas ainda não era, na verdade era ainda mais distante.   

Acordei sem saber o que possuía.
Toda a bugiganga que alguém pode acumular
E uma a vontade de empilhá-las e tacar fogo,
Na TV, no ventilador, na moto e na geladeira.
Então porque diabos eu não consigo riscar o palito?
Porque não deixo esta lentidão e volto a ser chamas?
Pode a vontade ser mais frágil que a dura lei vital?

Ah, o apego a cela
Compaixão ao próprio assassino.
Não fui eu sozinho que me pus em desgraça,
E também não será só que conseguirei sair dela
E mesmo assim me faltam considerações.
Tudo que me entretém me tem
E não me solta nunca mais.

Não escolhi saber da riqueza que não tenho,
Almejar sempre o futuro conformismo.
Hoje me conformo com a riqueza do mundo que não tenho,
E talvez só por isso

Hoje eu não queira ser eu.