Nascer é natureza humana
Rasgar a mãe, rolar à mão
Deixar de ser ar para respirá-lo,
Sentir vontade de chorar,
De comer, de esquentar-se.
Aprender é natureza humana.
Instinto hacker ambiental
Com cortex e dedos que parecem bombas.
Escutam, enxergam, cheiram, pegam e põe na boca.
Bicho que ainda há de ser estudado
Muito além de bem ou mal,
Perdão ou castigo, ganância ou solicitude.
Se algo fez era por poder,
Se algo pôde era fazer,
Até o dia em que o despota primitivo
Ascendeu deus, com gravetos sobre a palha,
E o segurou na mão, acima da cabeça de todos,
Jurando acabar com as trevas.
E quando os homens perguntaram "o que é trevas?"
A resposta que ouviram foi o "oposto da luz".
"Esquenta", foi como absorveram.
O tempo fez do mamífero uma praga
Que junta em torno dos rios
E doma o solo que um dia lhe cuspiu
Para fazer festas e descansar sobre uma rede.
"Quem foi que disse?"
"Foi o céu"
"Oh, disse-me também e disse mais"
Numa altura dessas,
O fogo já estava alçado e bem guardado no cofre celeste
Pois, se aquilo que ilumina é o mesmo que mata,
Só quem o criou saberia usá-lo. Então
A vigilância e a ira dos deuses
Tiveram olhos e cajado de homem.
Ulysses, inconformado,
Subiu e saqueou a tocha e a trouxe para nós,
Jesus, filho do general,
Veio a Terra e a tomou de volta numa bobeira de bebedeira.
Babel já havia desmoronado
Por cima de todo entendimento.
Felicidade já havia se tornado dádiva.
Vida já havia se tornado medo.
E só o que ouviam eram lendas sobre
7 dias dum passado e 7 dias dum futuro,
Pois 7 é o número da perfeição,
Oposto do 6, oposto de nós,
Distante de qualquer natureza.
Mas, os bebes que nasciam
Ainda rompiam do mistério
Soltando um choro natural, tal fumaça de vulcão.
Ao olhar os homens em volta, com receio amargo,
A mãe abraça forte o filho,
E pelo impulso de protegê-lo o
Ensinava a amar imprudentemente, assim como
Também aprendera de forma involuntária
De origem outra.
De qual abraço a bebe sente mais,
Bem ou mal, mal ou bem?
Na tentativa vã de apagar a chama,
Focar o fogo sobre algo que o reflita,
Novos homens jogaram a luz sobre si,
Por consequencia, sobre todos.
Argumentaram duma origem mais respeitável
Que uma costela e a sua serpente,
Que um homem e a sua vergonha,
Que um deus e o seu diabo,
Que um destino, a bosta de um destino,
Acerca do bem e do mal, mal e do bem.
"Querem saber, por meios dedutivos e objetivos,
De onde veio sua vontade de
Rir da tragédia bem enquadrada,
De como uma historia fictícia, feito conhecimento,
Pode lhe dizer muito a ponto de mudar teu espírito
Ao mesmo tempo que
Deseja uma morte por simples antipatia,
De gozar para gozar de novo,
Andar sempre mirando algo,
Todo esse turbilhão até quando em sonolencia?
Querem saber se seu coração
Bate pelo bem lutando contra o mal
Ou se bate pelo mal na luta contra o bem?"
O humano nasce,
É derramado ao solo
E vai ganhando alma aos poucos,
Vai montando-a com o que consegue
Escutar, enxergar, sentir o cheiro, pegar e comer.
(Por isso acredito que pobre é o lugar)
Se sangrou havia maldade na espada,
Se curou houve misericórdia nela também.
O que sobra para o futuro são as reflexões de
Alguém que caminha para o estábulo
Observando a cicatriz no braço
E não sabe o que fazer com ela.
Digo estas coisas porque,
Hoje cedo a caminho do mercado,
Vi de tudo, mas não vi fogo algum.
Não estava no céu, não estava nos homens.
E isto não significou bondade ou maldade alguma.
Era chocante demais para ser natureza, quem as veria assim
E não pensaria tratar de protótipos? Porém,
Natureza é só o que havia.
Pessoas dispostas, no mercado, seguindo
Placas indicativas de corredores. Eu também,
Escolhi macarrão, escolhi o mais barato,
Depois o molho, o queijo, a carne moída, cebola e alho,
Mas, das pessoas que se cruzavam e não se olhavam,
Surgiam outras receitas, outros corredores, outras vidas.
Assim,não precisavam nem olhar para não se esbarrarem.
O solo fazia a gente, como sempre fez.
E nós, como sempre fizemos, dividimos as coisas por desigual.
Praga asquerosa e natural.
O tempo me disse
"A natureza é uma só,
Sua parte imutável nela é apenas nascer e aprender,
E aprender insuficiente para medi-lá,
Muito menos para medir os outros,
E muito, muito menos para aplicar o valor da régua,
Ah, já ia me esquecendo
Morrer também é natureza humana"