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quarta-feira, 24 de junho de 2015

 Braços curtos, uma voz inútil e
minha presença desnecessária, no entanto
o aluguel. Portas domadas pela água azeda
que sai dos poros. A vitalidade
empregada numa abstração que não é a minha.
A força desprendida da alma e
seu retorno em sono fugaz. Desperto sobre minhas
dúvidas absolutas. Uma linha de sol na cara,
a novidade repetida. A ausência de uma cicatriz
denúncia a falta de riscos, as erupções na pele
dizem que exagerei.

Tanta fome de felicidade intermitente,
de renúncia total, ou qualquer outro veneno
que lembre um sonho imaginado.
Mas, meus olhos externos são pequenos
comparado ao das nuvens sem ego.
Finjo que a prioridade não é o meu pão,
que não é o meu copo ou minha pele.
Avanço mais um furo na cinta do contentamento
e escrevo palavras em ordem de dor,
como uma ardil atadura que cobre a chaga aberta e
recupera-me para voltar os olhos sobre a monotonia cotidiana.

quarta-feira, 17 de junho de 2015


Cores claustrofobicantes,
voluntariosos estorvantes.
Sofro náusea
na nova arca de Noé.

Preces delirantes,
idosos infantes.
Também sou causa
da minha falta de fé.

Cadê o feitor do dia
quinze do dois de mil novecentos e noventa e um
Para eu saber como

ele viveria
em lugar nenhum
sendo o que somos.

sábado, 23 de maio de 2015

Qual será o mistério que fiz,
para eu fazer mais,
Que lhe traz aqui
a toda minha atenção
para dançar com minha fumaça
Projetando bela sombra feminina na parede
a dominar um corpo em êxtase,
Derramando um exercito de formigas no meu peito
Com a suavidade de uma mão carinhosa,
Mergulhar em meus olhos e
entranhar-se em meu querer
para satisfazer sua própria vontade nossa,
essa vontade que derrete e escorre e
é indissoluvelmente nossa,
O que será que fiz?
Diga-me, diga-me
para eu fazer mais.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Trago
o mesmo sangue pulsado,
pisado, de que nasci.
O coração a bombar,
é o mesmo a bambear e bombardear
as próprias veias.

Neste rubro vivo
estendo a minha memória,
não a recorto,
e, assim, absoluta, sinto-a latejar
neste eterno presente
onde
minha ânsia
é vida que no peito ainda bate
e meu remorso
É leucemia maligna.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A vida é como o cigarro
Primeiro você quer aprender a fumar,
depois a desaprender

domingo, 26 de abril de 2015

Deito para te ver acima de mim,
Que melhor paisagem há?
Teus olhos fitam os meus que fitam os séus

quarta-feira, 22 de abril de 2015

onde for

Por tratar de mim, pensei
"Isso não dará em nada".
Os fatos não costumam
esperar ações minhas
para serem consumidos.
A lua orbitava por passa-tempo
E acho que também vivo assim.

Provável que a engrenagem toda
seja insensível
e que as grandes catástrofes
não pesem mais no todo
que o escorrimento de meu nariz
nessa manhã fria.

coisas acontecerão
e eu também acontecerei
a mesma coisa.

terça-feira, 24 de março de 2015

A porta

          ENTRE
  Ar Condicionado
 De segunda à sexta
    Das 9h às 18h
e  vadiagem integral,
fico com a vadiagem

segunda-feira, 2 de março de 2015

se for mentir, que seja amor


Era um jogo de espelhos
chato e cansativo.
A gente se repetindo,
Superestimando-nos
a cada xixi dentro do vaso.
A feiura do mundo coçava
forte na minha cara.
Não tava bom, nada.
Torcia pela catástrofe total.

Até surgir a luz
usando um vestido longo.
Como o ar puro que entra pela janela.
Os parecidos
desapareceram,
Deixando todo o caminho
para sua passagem.
Aguardei implorando
"ludibria-me".
Nossa proximidade
Expandia uma alegria banal em mim.
A tolice era prioridade a zelar
pela extensão do entorpecimento.

Na sombra de teu sorriso
Esqueci dos dissabores da terra
para conquistar minha ilusão
tão sonhada.
Não havia mais cólera na tv,
Nem falta de sal no arroz,
Ou poeira na estante.
Ate os prédios se alinharam
e as calçadas ficaram limpas.

No concordar de seus lábios
vi o mundo ser arrebatado
e todas almas elevadas.
Em teu seio
encontrei a salvação

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

César nos corredores do barraco

Eu tinha o mundo nas minhas mãos
Um horizonte em meus olhos
As questões em minha cabeça
As razões no meu coração
Um Sol em minha alma
Minha'lma num corpo e
Meu corpo parado na cozinha.

Foi quando vi.
Flagrei-me conformado
Apoiando o abridor de latas na armadura da sardinha,
Com meus olhos de peixe
Apontados para a maçaneta da porta,
Guardando uma boa distância dela,
Enquanto a desvontade anulava o movimento.
Perguntava-me sobre o que fazer da vida,
"comer sardinha ou subir no selfie-service".
Lá se foi meu último credo.

A impressão é que a porta
Já não separa o quintal da cozinha.
Sua travessia, um passeio  a vácuo
Culminando na mesma cozinha,
O destino sendo o retorno,
Com a cara de sempre e algumas sacolas vazias
A mais no puxa-saco e umas necessidades
A menos no dia.

Os dias passavam como o cobrador de impostos
Esgotando toda minha riqueza.
E eu só tinha, cada vez menos, tempo.
Mas olhar para a janela já não me libertava,
Esperava melhor efeito vindo do
relógio a pilhas,
Enquanto sonhava com saídas impossíveis
dentro de mim mesmo.

Estou bem,
Digo, o ar está abafado lá fora
E aqui posso andar pelado.
Não podemos sair desnudos,
Temos que nos transvestir.
Realmente, estou muito bem aqui!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

o eco

Um grito ecoou
Ao homem da cidade.
Com dois ouvidos ouviu
O mesmo que um ruído,
O mesmo de sempre, que já conhece
Conhece tudo por ali,
O sentido das ruas e seus cruzamentos,
Os murais das moradas,
O pórtico das lojas,
A sombra viva e a sombra morta,
Distingue
Os carros por nomes,
As marcas por cores,
Os costume pela forma,
O hábito pelo traje,
A origem pelo modo.
Aconselha
Sobre dor do corpo,
Sabor do alimento,
Limpeza do chão,
Menu do outbeck,
Bolão da rodada.

De tempos em tempos
Intriga-se
Quem são estes a dividir a cidade
Numa harmoniosa melancolia?
Quem são estes que meus amigos
Chamam de amigos?
Quem são estes a recolher todo
o leite da prateleira?
Quem são estes que curtem e
adoram a mesma deusa?
E pergunta mais do que seja
a dúvida de uma estrela solitária
Até o estômago se contorcer
de fome e seu brilho amarelar.

Tentei engolir o mundo
E uma inflamação se instalou na garganta,
Ao invés de tomar um copo d´agua,
Quis gritar aos homens, mas
O eco que retornou acabou
por me queimar.