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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Chuva

Me beije
Pois não saio em dias trovão,
Quando o espaço é preenchido com água,
Apenas invejo a peixes,
Assim como fico colado ao chão
Por falta de asas.

O mundo não me trouxe para que queixe
De muita imaginação
Trancafiada dentro de casa

Não me deixe
Com esse oceano a me inundar a visão.
Preencha meu corpo feito quem deita em águas rasas.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O inferno frio que inventou para fugir impune

Disse que eu era frio,
Esperava que pelasse.
Há muito ela esperava, aspirava,
Não por mim,
pela imatéria, na fé.

Ah,
Ficou decepcionada comigo,
Eu com o Famous Grouse,
Os dois com a segunda-feira.
Na essência eramos almas gêmeas sim,
que besteira.

Queria me convencer que não era dessas
de transar e querer sumir para sempre.
Queria se convencer disso.
Mentia para nós dois.

O algo especial na expectativa nos toma,
Amor se torna préssentimento
E o outro o seu depósito, esconderijo e
teu norte, teu sonho.

Não sei até onde conseguiria me tocar,
Sei que não toca e não vê o que não lhe sou.
Prefere me ver no que não quero ser.
Se for pra culpar alguém
iremos longe,
Diferente do orgasmo universalmente sensível,
Desilusão é cíclica e específica.
Tivemos tanto em comum, menos a gratidão.
Foda-se também.

Ficou inconformada pela mensagem não enviada,
Mas a mensagem não enviada nem mesmo era pra ela.
Já ela, fez questão de enviar
"te vejo no inferno"
Não verá mesmo,
Por mim não volta aqui nunca mais.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Sinto-me encoleirado,
Sem meios práticos
de mover algo além de vaidades.

A verdade é só o discurso da maioria,
E a maioria é o vislumbre pelo belo.
Não importa o tamanho do jardim,
A rosa que brota torna-se toda a verdade que há,
Independente do que o solo pense.

Vidas que não sabem apelar, intervir violentamente,
viram poeira a ser assoprada
por elogios de normas, morais e marcas.
Sobrevoam pela casa na maré do ar que circula,
depois arranjam-se em pares úteis
Contentando-se com o manual, a psicologa,
o advogado, o historiador e com o messias.
Pela posse dum lote,
O mundo inteiro virou prostituta
que amargura no fim do expediente
sem um ideia melhor para um dia tranquilo.
Mas acredita que ele virá

Eternos testes de consciência de uma vida fantástica
Bombas de hidrogênio no deserto,
Como se não estivéssemos prontos
nem mesmo para nos destruir.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Alcool

A pior parte de beber
É acordar
com amargor da noite,

Descompasso
Entre mente, corpo e mundo
Fatigando o simples ato de sonhar acordado.
O que acho positivo,
Olhar para frente com todo o entojo
Que a visão merece.

Concordo ser uma fuga covarde,
Mas fujo de um covarde,
De ruas covardes, de belezas covardes,
de poderes covardes, de conhecimentos covardes
E todo dois que é desigual.
Então se é uma fuga covarde,
é uma fuga para a mais espessa camada da realidade,
Longe da superficialidade dos egos
Inquebrantáveis.

Não importa para onde vá,
Será o afastamento glorioso,
Como o passeio com um cachorro
pelo quarteirão ou
O cigarro completamente tragado
nos intervalos de lanche.
Mais ainda, beber é trazer
o velho louco na companhia.

Tem sido as desculpas de minhas desculpas
Para os problemas que eu não preciso mesmo resolver.
Minha maior ambição
É a despretensão. Ela
Tem sido o combustível que me
Mantém parado.

A melhor parte de beber
É dormir
sem rancor do dia.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

LSD

Ao subir,
Na dispersão dos problemas,
Invocado por algum canto arterial
Parece o mundo outro, mas não se engane.
Ele ainda é não merece nem uma dose
Dessa euforia sentida que implora 
Para ser entendida. 
Não se canaliza um mar revolto.
Minha recomendação para o uso do veneno é
Descanalize, Descarnalize

Há quem engula cores
E respire sons,
Confortados em febre,
Oferendando a sanidade
Para receber a graça sublime.

Há em quem surja
Um animo para viver
Qualquer vida, qualquer mundo,
Inclusive o próprio,
Que, no momento, parece derreter.

Há quem faz de si um desconhecido ou
Um grande amigo vindo de longe
Em busca de diversão.

Há os que engolem a chave
De estomago cheio e mente vazia,
Personificando apenas os restos do almoço.
E talvez desfrutem até melhor dessa regurgitação
Do que muitos um banho quente.
O pior dos insatisfeitos é o perfeccionista.

Há quem instiga e se procura,
Por vezes se encontra e vibra.
E quem foge pelas variantes de sorrisos
Carteando um baralho de damas,
E também encontram, mesmo perdidos.
(Quem não está?)

No mundo visível
Uns tem estilo,
E os outros não
Devem se preocupar com isto.

Eis quem joga a própria mascara
Na boca da moral faminta
Que tenta tirar lição
Do que estamos desaprendendo.
Provincianos,
Feito garotinhos com nojo da mulher nua.

Há quem engasgue com o alimento.
E também quem morre de fome.
Há quem rejeite comida pela aparência ou receio
E quem banqueteia sem cerimônia

Há quem existe
E não resiste a vontade
De saber o gosto que
A consequência da loucura tem.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Epifenômeno

Epifenômeno
Foi, nalguns minutos,
A moça de fone
Na frente, no ônibus
Que mal cabia apertado
Meu ódio reprimido
Minha sombra cai ao lado
Mas o lado fazia do carro um paraíso
Dessa vez.
Dessa vez
Não queria nem descer no meu ponto.
Desci, como sempre, muito supondo.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

As vezes escrevo tolices
E as lanço no ar mesmo assim
Pois serve aos tolos,
Logo, mais ainda serve a mim.

Também já sangrei a alma
Vida no pc transcorrida de minha mão
Como quem arranca flor da arvore
Para arremessá-la ao chão

Faço poesia sem motivo,
Assim como vivo e me agarro a isto.
Onde vestidos
São investidos no pressuposto
Instigo
Dum bom disposto.

Quando o que informa
São formas, são seletivas,
De fora
Da fenda em expectativa.

Como não delirar
Dele lá que ainda nem sabe
Endeusá-la
O quanto lhe cabe.

Segurando-se aguarda
O que agrada, qualquer sinal
Igual o que guarda
Para o final.

Sei das tuas mentiras
Mas nada me tira a benção vil
De cair nessas armadilhas
Salve, salve coração imbecil.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Da Africa ao Carrefour

Nascer é natureza humana
Rasgar a mãe, rolar à mão
Deixar de ser ar para respirá-lo,
Sentir vontade de chorar,
De comer, de esquentar-se.

Aprender é natureza humana.
Instinto hacker ambiental
Com cortex e dedos que parecem bombas.
Escutam, enxergam, cheiram, pegam e põe na boca.
Bicho que ainda há de ser estudado
Muito além de bem ou mal,
Perdão ou castigo, ganância ou solicitude.

Se algo fez era por poder,
Se algo pôde era fazer,
Até o dia em que o despota primitivo
Ascendeu deus, com gravetos sobre a palha,
E o segurou na mão, acima da cabeça de todos,
Jurando acabar com as trevas.
E quando os homens perguntaram "o que é trevas?"
A resposta que ouviram foi o "oposto da luz".
"Esquenta", foi como absorveram.

O tempo fez do mamífero uma praga
Que junta em torno dos rios
E doma o solo que um dia lhe cuspiu
Para fazer festas e descansar sobre uma rede.

"Quem  foi que disse?"
"Foi o céu"
"Oh, disse-me também e disse mais"

Numa altura dessas,
O fogo já estava alçado e bem guardado no cofre celeste
Pois, se aquilo que ilumina é o mesmo que mata,
Só quem o criou saberia usá-lo. Então
A vigilância e a ira dos deuses
Tiveram olhos e cajado de homem.
Ulysses, inconformado,
Subiu e saqueou a tocha e a trouxe para nós,
Jesus, filho do general,
Veio a Terra e a tomou de volta numa bobeira de bebedeira.

Babel já havia desmoronado
Por cima de todo entendimento.
Felicidade já havia se tornado dádiva.
Vida já havia se tornado medo.
E só o que ouviam eram lendas sobre
7 dias dum passado e 7 dias dum futuro,
Pois 7 é o número da perfeição,
Oposto do 6, oposto de nós,
Distante de qualquer natureza.

Mas, os bebes que nasciam
Ainda rompiam do mistério
Soltando um choro natural, tal fumaça de vulcão.
Ao olhar os homens em volta, com receio amargo,
A mãe abraça forte o filho,
E pelo impulso de protegê-lo o
Ensinava a amar imprudentemente, assim como
Também aprendera de forma involuntária
De origem outra.
De qual abraço a bebe sente mais,
Bem ou mal, mal ou bem?

Na tentativa vã de apagar a chama,
Focar o fogo sobre algo que o reflita,
Novos homens jogaram a luz sobre si,
Por consequencia, sobre todos.
Argumentaram duma origem mais respeitável
Que uma costela e a sua serpente,
Que um homem e a sua vergonha,
Que um deus e o seu diabo,
Que um destino, a bosta de um destino,
Acerca do bem e do mal, mal e do bem.

"Querem saber, por meios dedutivos e objetivos,
De onde veio sua vontade de
Rir da tragédia bem enquadrada,
De como uma historia fictícia, feito conhecimento,
Pode lhe dizer muito a ponto de mudar teu espírito
Ao mesmo tempo que
Deseja uma morte por simples antipatia,
De gozar para gozar de novo,
Andar sempre mirando algo,
Todo esse turbilhão até quando em sonolencia?
Querem saber se seu coração
Bate pelo bem lutando contra o mal
Ou se bate pelo mal na luta contra o bem?"

O humano nasce,
É derramado ao solo
E vai ganhando alma aos poucos,
Vai montando-a com o que consegue
Escutar, enxergar, sentir o cheiro, pegar e comer.
(Por isso acredito que pobre é o lugar)

Se sangrou havia maldade na espada,
Se curou houve misericórdia nela também.
O que sobra para o futuro são as reflexões de
Alguém que caminha para o estábulo
Observando a cicatriz no braço
E não sabe o que fazer com ela.

Digo estas coisas porque,
Hoje cedo a caminho do mercado,
Vi de tudo, mas não vi fogo algum.
Não estava no céu, não estava nos homens.
E isto não significou bondade ou maldade alguma.
Era chocante demais para ser natureza, quem as veria assim
E não pensaria tratar de protótipos? Porém,
Natureza é só o que havia.
Pessoas dispostas, no mercado, seguindo
Placas indicativas de corredores. Eu também,
Escolhi macarrão, escolhi o mais barato,
Depois o molho, o queijo, a carne moída, cebola e alho,
Mas, das pessoas que se cruzavam e não se olhavam,
Surgiam outras receitas, outros corredores, outras vidas.
Assim,não precisavam nem olhar para não se esbarrarem.
O solo fazia a gente, como sempre fez.
E nós, como sempre fizemos, dividimos as coisas por desigual.
Praga asquerosa e natural.

O tempo me disse
"A natureza é uma só,
Sua parte imutável nela é apenas nascer e aprender,
E aprender insuficiente para medi-lá,
Muito menos para medir os outros,
E muito, muito menos para aplicar o valor da régua,
Ah, já ia me esquecendo
Morrer também é natureza humana"

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Racional em ócio/tristeza sem fundo

O coração acelerou,
 Era como se parasse.
Qual a diferença do susto para surpresa?
Num está tudo bem,
Noutro está tão melhor.

Digerindo a janta num canto da casa
Corpos desfalecem de ingratidão,
E ficamos tristes sem nem saber porque.

O que é que temos? Se
Eu estava bem vestido,
Na garagem um carro,
No celular alguns números
E minha cabeça sei lá,
Tipo normal, tipo morna.

De repente acontece,
Feito a perdição dum barco na tempestade
Que só recebe as luzes de raios e conselhos de trovões,
Tipo isso, tipo lapso,
Fechou o tempo no quarto.

Por não achar no que pensar, no que pisar,
Perdi o chão e todos que me habitavam foram com ele,
Dobrando a solidão, excedendo-a,
Causando efeitos de embriaguez.

Papo fiado, conversa de bar.
No balcão da cela
Um espírito míope e onipresente
Sussurra que minha presença é essencial
Nos outros, no mundo, no tempo, no etc,
Longe.
A retórica também é sobre mim.
Desabafo o sentimento que acabo de inventar
Até acreditar, de todo coração recém torcido,
Que não suporto mais essa agonia d'algo.
Esse auto-flagelo em silêncio.

Mas, chorar e a mãe não vir desperta.
Afinal, está tudo bem.
Fazendo o mesmo e o oposto que viver
O corpo escorado na mesa bonita continua saudável.

Foi só um susto que queria ser surpresa.
Foi só cansaço. Foi só preguiça.
Foi só mais de tempo perdido.
Foi só falta de imaginação. Sei lá.
Não foi nada.

Tipo um filme ruim do início ao fim
Que nos deixa desgostosos de ver TV
E basta desligá-la que já é um alívio danado.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O velho e a praça

Um velho senta a praça
Sem intenção alguma.
Cospe contra o recuo
Buscando a terra,
Fazendo mais que todos.
Transeuntes relevam
Sua mão apoiada no saco
Como se esquivassem de algum constrangimento.
Então o velho coça mais para não poupá-los.

O velho sabe muito
E ainda assim repousa a carcaça
sobre a pedra empoeirada.
Os pombos não lhe fazem mal,
Recebem o miolo do pão
E pode-se observar o chão virar aves.
Passa o jornal sem prender os olhos em uma única publicidade,
Mesmo estas preenchendo o maior conteúdo.
Nunca precisou dessas novidades importantes
Para estar sentado ali quando possuído pela vontade.
Lê, sem interesse, somente os jovens
Renovando o discurso absurdo dos antigos
E depois os dobra para sempre.
Quem aponta num lado da praça
Demora cerca de 30 segundos
Para sumir pelo outro canto
Confirmando sua teoria novamente,
As pessoas não mudaram
E a novidade é um delírio.

Um velho amigo se aproxima
Com peças de damas dentro de uma sacola.
O lírio do canteiro perde a atenção para seu bom.
As mãos trêmulas do adversário dão início ao jogo,
Enquanto, com naturalidade ele contempla, no amigo,
Os mesmos efeitos que o tempo o resignara.
"Ninguém é podre como nós atoa haha
Quantas loucuras esse porco enrugado
Já não promoveu num único impulso?"
Linda é a pessoa que nos reflete e ainda sorri.
A conversa é longa.
O tempo é contado de uma forma
Mais lenta e menos violenta
Do que realmente age.
Não importa,
Perderam a pressa que tiveram
E que tanto desfoca a praça.

Calmamente o jogo se encerra
E ele sente sua primeira real necessidade do dia,
Alimentar-se. Então,
Parte por entre a confusão coletiva.
Uma moça, a mais apressada, tromba-lhe
E pede desculpas voltando a acelerar.
O velho aceita com um gesto, mas, no íntimo
Gostaria de dar um conselho a ela
"Que não existe necessidades estáveis
E o tempo sempre correrá feito inimigo.
Avisá-la que lhe resta muita vida
Para ficar circuitando em praças
Até criar uma empatia involuntária por elas,
Até congelar na metade do percurso,
Até perceber toda indiferença desse repetido ato,
Até esperar ser seu único movimento.
Fuja menina, fuja a passos velozes,
Mas não para a mesma direção que corre essa gente."

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

desiquilíbrio entre dia e noite



O silêncio não pairou sobre o fim do dia,
Nem cá, nem lá.
Restando corpo e tempo em desacelero
Encolhido sobre uma esfera estranha
Da qual tanto recuso durante a postura reta.
O caos é uma pedra incandecente
Mantida entre olhos e pálpebras
Vindo a refletir a incompreensibilidade sempre as escuras,
Deixando-me sem dormir.
Se é mesmo verdade que espíritos são amaldiçoados
Ao deixarem algo em vida por fazer,
Tendo assim que permanecer a assombrar uma mesma casa
Pelo resto de muito tempo,
Essa sensação só pode ser um sinal.
Meu espírito se contorcendo e gritando
"Não me deixe aqui pela eternidade,
Não com essa imagem deszelada,
Levante, peça desculpa ou a mande ao
Raio que o parta.
Vista a dignidade também dentro de casa".
Fico com realidade macia da minha coberta,
Permaneço com essa azia, tal descoberta
Que há de existir uma questão para eu decifrar,
Salvar o mundo e finalmente dormir.
Reviro-me como se a resposta
Fosse descolar da mente e rolar ao colo.
Claro que não rola.
A auto referencia é o pai da mentira,
Ora, então cade o diabo desta parábola?
Alguém faça o favor de receber as minhas culpas
E me deixar dormir.
Vizinha? Chefe? Presidente? Adolf Hitler?
Neoliberalismo? Funk Ostentação?
Vinde a mim receber vossos quinhões.
Não quero levantar mais e ter ao alcance
Apenas um copo d'água gelado
ou esses pontos verdes para bater papo.
Nem dedo ou alma suportam mais
Conversar com o editor de texto.
Até a TV que em muitos repousos me guardara
Já não passa duma maldita trombeta do apocalipse
A me incomodar também.
A propaganda anuncia que o mundo continuará desonesto
Após o Jô Soares.
Confortável como numa cadeira elétrica,
Numa espera ansiosa,
Sabendo que o tempo não resolve nada,
Porque amanha virá outra noite dessas
Se eu não tomar alguma previdência
De promover a paz mundial ou
Conseguir logo uma maneira de me entorpecer.
Com um pouco mais de sorte isto não seria um quarto,
Seria um bar
E teria um velho engraçado a me desentediar
Com sua esperança alheia,
Uma menina descontente com a atitude
Dos tiranos e
Meus amigos tocando violão
Preparando-se para mais um dia de sonhos.
Mas não, estou só e sem sono algum
Pensando no que será que eu deveria pensar
Para me preencher de harmonia.
Só nesta casa existem seis quartos
Quem se conformar por ultimo tranca as portas e apaga as luzes.
Por fim, também é justo.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Da vontade de viajar sem bagagens

Queria amor,
Não amá-la.

Sim à moça abstrata,
Preencha-me da força animosa.

Sem fato que saudade distorça
Ou trato que palavra recorra.

Queria amor,
Não a mala.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Essa poesia é sua amiga de Bar
Nas melhores e nas desgraças

É sua amiga no Ar
Do descrito ao que lhe transpassa

É sua amiga de Mar
Juntos, águas fundas passam a águas rasas

Essa poesia é sua amiga de Lar
Assim como tu é amigo da casa.

terça-feira, 15 de julho de 2014

"Fácil como mentir"

A solidão lhe apavora.
O álibi perfeito da tristeza
Para matar certezas.
Diga que o tiro veio de fora.

Demonstre surpresa,
Com balas de cereja guardadas
Revele as intenções lapidadas
Sem esvaziar a cerveja.

Imite o movimento que dá vida ao rosto
Pessoas são músicas, filmes, jogos, livros,
Boates, boatos, setores, cozinhas, salas e vícios.
Um buque enquanto examino seu gosto.

Poesia moderna racha a conta
Então descem a rua feito rima
Acompanham-se em cada esquina
Beleza ouvida ao unir de pontas

O toque suave das bocas espanta os olhares pesados
Cada mão cria dez dedos e os pés já não chutam pedras
É anestesiado pela fala de sua nova coberta
E a avenida que passa já não é mais como tem passado

Esforce-se o máximo antes de dormir,
No dia seguinte amara, mas demorará admitir
Se é solidão que lhe apavora
Pode ficar tranqüilo agora.
Conseguiu, pelo jeito mais fácil, mudar a realidade

Sem precisar, sequer, mudar de cidade.

domingo, 13 de julho de 2014

Desintenção

Enquanto corria de carro,
Esperando a gente chegar,
Perseguindo o horizonte num traço cinza,
Com a licença das fazendas,
Pasto gigante,
Contava, um a um, os bois comendo o mato.
Ou fribois, coletivo patenteado.
Talvez essas contagens transeuntes
Seja o único momento individual
Que este beef em engorda tenha
Antes de arder e escorrer no carvão.
Bichos tão entediantes quanto meu tédio.  
Restavam olhos, orelhas,
E um rabo chacoalhando,
Chicoteando as moscas que gostam do cheiro de bosta.
 Por isso, não consegui vê-los nitidamente,
Não no sentido “sinônimo de qualidade” da palavra.

De quantos metros de chão eu preciso
Para fazer o que quiser de um vício epidêmico?
Com quantos segundos no intervalo da novela
Se inventa uma tendência?
Quanto custa
Ganhar dinheiro de todo mundo?
Aposto que esses bois se perguntam a mesma coisa,
Mascando e contando os carros.

Bicho sem sorte.
Melhor é aqui dentro
Que troca a música e chega a algum lugar.
Chego,
Rendido de fome e
Após esperar mais de 20 minutos na fila da engorda
Pergunto ao carniceiro:
"O que tem bom e barato pra churrasco?
Friboi não, muito caro e esse bichos são todos iguais."
O segredo é o tempero e a mão do churrasqueiro.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Dos dias que saem comigo para não se encontrarem

Só preciso ficar qualquer coisa de feliz
Porque irão bater na porta e vão me ligar também
E será mais fácil ter um sorriso do que uma explicação.
Meio sorriso ta mais que bom.

Entenderam tanto na última semana
Que quando olham no fundo de qualquer gaveta
Encontram um pedaço, bem matado, do próprio ego.
Acham graça, estão vivos e endireitaram o arco que lhe formava as costas.
Mais fortes do que nunca saem pra comemorar a nova fronte.
A cidade ainda é a mesma, sem novidade
Os amigos também são os mesmos, quem sabe alguma?
Meio sorriso ta mais que bom.

-O que você vai fazer?
-Desenrola
-Vamos tomar uma?
-Não sei. To meio quebrado.
-De grana?
-Aham, ta foda.
-Eu pago hoje.
-Será?
-Lógico.
-Então vamos.
É bom ver essa gente feliz,
Empolgadas para confessar seus planos,
Jorrando libido e que socariam a própria vó apenas para me impressionar.
Não preciso de muitos copos, se isso deixá-los felizes,
Também socaria a velha.
Só querem extravasar para sentirem-se livres, finalmente.
Isso, claro, quando não vêm depressivos.
Falando que são vilões e que fazem tudo errado.
De certo não são vilões, não tem um papel tão importante assim.
Para usar o passado, tem que usá-lo por inteiro,
As ruas, as escolas, os brinquedos, os botecos em que o pai caía,
Em que o avo caía e em que o tio caía mais ainda.
Onde te trancavam e como faziam isso?
Não deve usar sua memória como um holofote ligado em você.
Como saberão de onde veio essa merda de mentalidade?
A gente não conhece ninguém
Enquanto desconhece-lhes seus pais.
A ficha da policia não basta, com as leis que temos é óbvio.
Mas quem se importa?
Nunca perguntarei nada disso pra ninguém.
Meio sorriso ta mais que bom.

E voltam renovados para casa,
Cheirando a cerveja e cigarro, que não foram nada mal.
Nossa maneira de dar chance a vida é
Sair do claustro cada vez mais fortes e conseguir se divertir.
A jaula é solitária, tediosa, complexa, sombria 
Que um insight é uma alegria danada.
Fico qualquer coisa de feliz.
Difícil se explicar sóbrio e fico incompreensível bêbado.
Será que um dia terei certeza de alguma coisa?
Melhor segurar a língua para não pisar nela.

Meio sorriso ta mais que bom.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Ser

Não interpretem como desmazelo,
Como apelo
Ou imaturidade,
Afinal, são poucas oportunidades.
Não é ser um porco,
Não é ser um torto,
Não é ser um morto.
Questão é que um corpo,
Atualmente, tem mais serventia que mil
Pensamento libertos,
Incertos
Feito amores e amargos
A ousar a aspiração dos pássaros
Mas, castigados
Por não serem fatigados,
E antes do primeiro engano
Nota quanto maior a afinação do canto
Mais caro dentro de uma gaiola
Do mundo ganhei dono
Honesto e um nome de santo
Meu mesmo, eu mesmo, só dentro da caxola
Que viaja sem destino
Clandestino
Sempre menino
Sempre a crescer
Sempre a aprender.

terça-feira, 24 de junho de 2014

atrasados

Nunca senti gosto naquele ciclo patético.
A profecia era deles, mas eu sabia
Exatamente como acabaria.
O Sol já não era tempo,
Quem dava o tempo era um aplicativo.
Uma lâmpada,
Não a ideia.
Os dias então se tornaram iguais,
Previsíveis,
O mundo cabia numa privada
E as pessoas num umbigo.

Quando alguém no ponto,
Largava o iPhone e
Desandava a falar virava sinestesia.
As palavras saiam com formas de sites e
Cores de bandeiras.
Opinião assim era compartilhada.
A cerca da política, superficialmente,
Chutavam os planos certos para a sociedade
Como algo a concluir,
Porém, encaravam as suas vidas
Como se fossem eternas.
Depois, em orações,
Repetiam esta lógica, mas dizendo da alma.
Nunca uma vida amarga
Foi tão fácil de engolir

Alguns tentaram
Ajustar o relógio dessas pessoas
Para o tempo presente, porém,
Desconfiadas, elas passaram a esconder seus relógios.
Não diziam mais nem a marca.
Apenas resmungavam a verdade consentida
“Política e religião não se discute”.
Quem persistisse ganhava o título de louco,
Chato, briguento, enfim, inconveniente.
O resto voltava para suas vidas
De vender o ontem para pagar o hoje
E conformar-se de só lucrar
Quando não houver mais um amanhã para quitar,
Ou será o amanhã que tanto esperaram?
Ah, essa dúvida
Continuará sendo a maldita herança a
Ser passada de geração em geração.
A única herança que deixarão a seus filhos e
Matará os meus, mesmo
Muito antes de morrerem.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Dia sim, dia não

Escapou por pouco.

Com uns goles atrás de distância
Sai tropicando seu nome
Na hora da música errada e
Um beijo desafinado
Sem gosto de lua cheia.

Investi o que tinha
Quando menos tive.
Tentei lhe comprar com um sorriso frouxo
Algumas palavras moles
Uma mão boba
Mais o exemplo da madrugada 
Que nos cercava
E termina sempre na mesma direção.

Não se conduz uma dança
Se você não consegue
Ao menos endireitar os passos.
Mas eu virava melhor as garrafas
Que, por sua vez, me viravam de volta.
E me equilibrava com um cigarro
Entre dedos
E não lembro bem 
Abraçada a que impressão
Lhe fiz dormir,

Sem poder examiná-la 
Sobre a luz clara da sobriedade.
Escapou no primeiro raio
Que abriu o dia na rua.
Permanecendo estranha
Ao eu que sente, mas, por momento
Parecia pedra.

Sagaz,
Conseguiu livrar-se daquele louco
Primeiro que eu.

sábado, 7 de junho de 2014

Gertrudes, responde!

Gertrudes,
Será que sem esse seu truque,
Tal do facebook,
Teria essa atitude
Rude
Que em muito me ilude
Quando na inquietude
Procuro em perfis virtudes?

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Ouvia o que eram os carros
Enquanto bebia minha cerveja, já quente,
Brisando de leve na minha cama (que dia é hoje?)
Olhava para as páginas gastas do livro do desassossego
Pois todo o resto era caos.
Esqueci, meio de propósito, o chão para varrer
Hegel, Focault e Hannah Arendt
Uns copos na pia para jogar água e
Alguns parentes para ter saudade
Como aquela gente que pulsa e respira
E enxerga sentido oculto nas coisas.
Mas, o gato teve sua ração na hora,
Não antes dele mesmo me lembrar disto.
Qual barulho é mais alto daqui do quarto,
O ronco do motor ou o do pneu rolando sobre o asfalto?
Passei mais quatro páginas, como costume,
Sem compreender o que li, então voltei as quatro.
O cigarro é aceso,
Corro procurar o cinzeiro antes de precisar da vassoura
E resgatar o ódio sobre meu relaxo.

Assim, os minutos são mais fáceis de controlar
Do que a garota de blusa azul que escreve poesias.
Acho que não estou só
Quantas almas peregrinam nessa tarde
Tão despercebidas quanto eu?
Que vivo a consumir para
Fugir de tudo que me consome.
Que tento sumir
De um mundo que não some.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Timeline

Por acaso, passaste ainda menina,
Num tempo que era nosso,
Sequestrando a minha retina
Sem o menor propósito
De voltar um dia a ser minha
Como era no tempo da foto.

Em sua imagem a sorrir
Eu era margem de sua alegria
Que por falha da engrenagem
Não mostrou que eu existia

Fato não prova nada,
Eu nem estava na foto.
Estava na data.
Eu não estava na festa,
Não sei onde estava
Mas, pela hora, te amava
Será que na foto me falta?

Fixei-me numa quase fotonovela,
Não expressão da arte fotogênica contemporânea
Apenas, lembranças da minha cela
Ainda não havia a sociabilidade instantânea
Hoje em dia, muito pouco a foto revela
Além da ansiedade espontânea.

Quem vê fotos enxerga também o implícito e o interno
E qualquer foto naquela altura te trará aqui.
Fotos são insuficientes para dizer o que deixa de eterno.
Pois sei que eu também estava, e muito, ali
Presente no SMS do celular, na carteira ou no final do caderno

Talvez eu exista mais naquela foto que nem sequer saí

terça-feira, 20 de maio de 2014

Os pretos pobres do século XXI

Os pretos pobres estão por ali
A lavar o chão por pão
A saquear os bancos dos brancos

Os pretos pobres estão por ai
Sábios, diretos em seus direitos
Sóbrios a ignorar a ignorância

Os pretos pobres estão por aqui
A respirar nosso ar envenenado
A desejar o ouro do tolo

Os pretos pobres estão lá
Candomblé, Quimbanda e Umbanda
A implorar prum Jesus numa cruz

Os pretos pobres estão
A cantar e encantar com seu brilho
A redobrar seu penar em pensar no seu filho

Os pretos pobres estão sobrevivendo
Com pensamento comum e incomum
À custa duma não ajuda enjoada

Os pretos pobres estão nos piores lugares que alguém poderia estar
Adoecido esquecido em cima duma maca

Saudável agradável e útil atrás da placa



quinta-feira, 8 de maio de 2014

Duelo


-->
Seu ego
Gritava algo
Enganoso

Um eco,
Em mim tiro certo
Quando Lerdo e oco

A seco
Chutou-me no saco
E na alma um soco

Sem elo
Nos tornamos um paralelo
Onde um vive do outro.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Basecamente


Feito quem não pôde concluir diferente,
Reconheço, este, meu lugar,
Raso e longínquo,
Do qual me sirvo e a quem mais serve,
Como única maneira de contentamento.

Admito
A felicidade congênita de ser vivo
Com o infortúnio contingente de viver
Em formato de solo pisado.

Feito o chão que sustenta o corpo,
Formo, junto a milhões de irmãos,
Um corredor imóvel a sustentar
Uma passeada esnobe da classe operante.
Pisam-me os quem tem movimentos.

Porém, da ação pouco possível
Não me abstenho.
Difiro-me das calçadas de centro,
Planejadas para serem bonitas e resistentes,
Que não sentem, na pele, a pressa dos sossegados e,
Caso se rompam, são facilmente substituíveis.
Ou também das ruas periféricas,
Mal-feitas para durar sub passos indiferentes.
Construídas para quem não anda.

Não que eu seja lá grande coisa,
Mas, ao menos, 
Imenso dentro do que posso ser.

Sou chão poeiroso
Que prefere a beira de estrada.
Refeito a cada vento,
Traiçoeiro em tempestades,
Que encarde os sapatos brancos e,
Apesar de ser atravessado contra a vontade,
Antes, tomam-lhe tento.

Para isto, basta a naturalidade em ser.
Inspirar como se tragasse ar
E soltá-lo para continuar bem e
Jamais creditar à vida
Algo mais intenso que este compasso.
Por vida, é o máximo que posso ser.
Igualdade, a morte é a única quem dará.
A concepção é uma das poucas largas escolhas.

Não se afobe, precioso pequenino.
Quanto menor for,
Maior será o infinito
A permanecer distante.
Se eu fosse céu,
Que céu teria eu?

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Dança em nuvens


Ontem lhe encontrei
E me veio, hoje, a vontade de escrever poesia.
Uma poesia tão alegre quanto me sentia
Tão bonita que em ti a lerei.

Ontem, de ouvidos me fiz de servo
Para a boca ter serventia
E o que à imaginação o olhar refletia
Eu pudesse trazer para perto

Ontem, foi pouco tempo
Para o tanto que planejei,
Que pelo estreito da garganta aos poucos saia

Agora com calma sento
Escrevo tudo o que não lhe falei,
Menos alegre por ser hoje outro dia.

terça-feira, 18 de março de 2014

A casa alugada


Intimamente,
Desde a escolha ao rompimento,
Ninguém acreditou na realização do amor alado.
Mas, nesse mundo,
Os sonhos e desejos estão colados nums poucos trilhos.
Era só isto que dava importância.
Foi o que mais quiseram, queriam tocá-lo e
só aceitavam a posse legítima.
Consentiram toda a verdade
Que puderam expirar.
Desfizeram os laços com todos que lhes comeriam de qualquer forma,
Crus, assados, fritos, bons ou ruins, quentes ou frios, para
Envolverem as mãos num nó cego.
E foi lhes desejado toda sorte do mundo através dum eco.

Intimamente,
Quem amava mais sempre cedia,
Mas ambos falavam muito sobre personalidade.
Certamente uma cabeça era mais pesada, e
Pesava um lado da cama,
Então se abraçavam e dormiam quentes,
Pesando sobre um mesmo clima.
Havia, entre eles, uma constelação de dentes
Que os tornavam terra firme,
Como uma casa na beira de um lago,
Contemplativo incansável,
Que só inspira a paz.
Era nesta casa que abrigavam seu amor,
Mesmo que passassem a maior parte do dia fora dela.
Sempre tinham aonde voltar.

Intimamente,
Seus dias corriam em paralelos.
E os santos previsíveis que os abençoavam
Davam folga ao senhor destino.
E as datas tinham rostos familiares desconhecidos,
Era um pouco de verdade misturada com mentira.
Suportavam, juntos ou separados,
Cargas desmedidas de afeto
compensada por uma companhia fraterna constante.
E quando o mundo gemia de dor
Sempre havia braços fortes
A acalmar o coração acelerado.
Uma sombra falsa que
Lhe segura num tombo.

Intimamente,
Temiam o dia que a mãe terra
Cobrasse a casa que lhe pertencia.
O dia em que o nó não suportasse a disputa
Dos bárbaros aos artistas contra os dois,
Tudo que eram sós completos e
Não aceitaram dividir voltou.
Todo o amor que escravizaram em silêncio
Desaforriou num único soco contra o peito.
E o amor que estava nas mãos fechadas e unidas
Vazou por entre dedos e
Voltaram a ser leigos em amar.
Como um deus que
Só o procuramos no lugares errados,
Blasfemou também contra o amor.
Foi avisado: “Beba logo que o café esfria rápido,
Ora, existe onde não se vê a sorte borrada? 
Está impreganada em tudo."
Pois é, tem seu deus e seu amor intocáveis agora.
Na sólida solidão que te liberta,
Que te lança do precipício
Sem cordas para te impedir de chegar tão fundo.
Tão íntimo.

sábado, 15 de março de 2014

Diga sobre você: II


-->
Não, não gosto de falar sobre mim.
Prefiro o chão gelado,
A parede áspera,
A pia molhada,
O banheiro escorregadio,
O sofá, que sofá?
A cadeira bamba
Naquela maldita sala empoeirada,
Mesmos que todas estas coisas não se sintam assim.

Não há nas coisas sentido oculto,
Não há sentido algum a
Não ser o que damos a elas
E é pelo que tenho sentido
Que prefiro não falar de mim, mas
Atribuir isto nas coisas
Que não sofrem de decepção.

Já eu, eu sou vulnerável.
Sou pele quente arisca,
Pele lisa e fraca,
Um bicho que só vive seco,
Leve o suficiente para ser desequilibrado,
Pesado demais até para o descanso,
Incomodado dentro de minha fortaleza por uma simples matéria sem tamanho.
Que absorve isto e o oposto, e
Inventa demasiadamente.

Não, não gosto de falar sobre mim,
Sinto muito.
Mas agora, com licença, 
Preciso fazer uma faxina.

-->

quinta-feira, 6 de março de 2014

Viver não é preciso II


O que somos
Se não um evento redutível?
Mesmo que além haja luz,
Para este mundo real,
Para este chão firme que pisamos,
O que somos além de, como diríamos dos ratos,
Pragas neste planeta?

É belo porque dominou a natureza?
Então, me diga
Como realizou esta façanha.
O rio não dominou a natureza
E por isto é forçado a fluir
Sempre na mesma direção.
Se eu trocar, diariamente,
Trabalho por dinheiro
Para daí trocá-lo por um audi,
Uma casa no litoral e uma esposa perfeita,
Diga-me como estaria assim dominando a natureza?
Movendo o mundo indiretamente
Feito um fluente que mais nada pode ser
Além de grato ou insatisfeito?
Isto é ação dominada e não dominante.

Mesmo que sonhe
Não sonha diferente
Da fome de um rato,
Ambos sentidos cegos de desejo,
Sacrificando-se por qualquer coisa
Que o torne asqueroso.
Banaliza o dever e canoniza o devir.
Diverte-se só para não faltar papo
Quando faltar o gozo.
Para não ter silêncio se o silêncio incomodar.
Sempre com saudade do que mais quis um dia
Feito um helianto infértil que
Segue um ciclo de viver para si
Por mais que viva em um vale afortunado.

Mesmo que pense, que fale,
O que, disto, não foi lhe dito pelo mundo?
Quando olhei à dentro de meu juízo
Vi-me como vários visitantes
Que vivem a me convencer o que é felicidade,
Que vivem a apagar incêndios nas ideias.
Então, o que somos
Se não apenas pequenos filtros ambulantes
Que vê e fala o que viu,
Dependendo de como vê,
Dependendo do que já viu?
Nossa essência é um mundo virtual forjado,
Calejada de sofrimento para firmar nossas alegrias,
Nosso contentamento de vida.
Usufruindo o direito do egoísmo que
Nunca ajudou em nada os seres mais frágeis da natureza.
Admitimos essa ficção
Feita por alguém que já dominou este planeta
E agora o alimenta com dinheiro.

Independente, 
Não posso dizer nada mal do rato
Além do nojo que me traz, 
Nada que eu faça, ou ele mesmo o faça,
Tornará, o rato, mais do que
Grato ou insatisfeito com o seu redor,
Perdido em qualquer parte do ciclo da vida.
Mas sou um homem e não um rato.
Afinal, o ser humano dominou a natureza, porém,
Quando olho para essa corredeira de gente
Me pergunto,
Qual ser humano?

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Viver não é preciso


O mal do mundo
É o indivíduo depressivo.
Não o sujeito infeliz,
Que com tempo
É um pouco todos nós.

É quem ganha a atenção
Aos berros de dores
Por espinho de rosas.
Não mal de natureza injusta,
De auto defesa,
Que rasga e mata.

O mal do mundo está no
Desgraçado que nos sufoca.
Que não respira, desabafa
Todas as incoerências
Que conseguir contar
Num só impulso, e
Vomita como se o chão fosse seu.

Estorvo
Que sofre feito quem sonha.

O indivíduo depressivo
Remove diariamente
As cascas de sua chaga
Com a língua.
Tem sua cicatrização regada.
Faz nascente com os olhos
E do pensamento quedas
Cria inimizade contra a própria mão
Que enfim, lhe afoga,
Antes que pudesse navegar
onde já cessou a correnteza.

A depressão se instala
Na falta de convicção,
Nas ações infrutíferas, digo,
Ficar pedalando sem a corrente.
E há depressão em tudo,
Na politica, na religião,
No amor e até no consenso.
Há depressão na fuga
Para onde quer que seja,
Que não um buraco no solo
Para guardar teus restos,
Virar raiz de
Qualquer coisa rumo a luz.
Quem dera elevar poemas,
Ou então que seja bombas, ou ainda
Bomba-poema (jamais saberei).

Dê uma chance a si,
Tire sua vida da memória.
Veja as cores desse tormento,
As formas da nossa destruição,
Ouça essa música que embala
Este nosso percurso trágico
E saiba que esse sofrimento
Não foi feito pra você,
Assim como alegria alguma.

Sangre em paz ou faça sangrar,
Pois todo viver há de pulsar.
De males, já têm tudo de 
Desagradável ou insignificante no mundo,
Não seja tu mais um.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Espelho d'agua


A campainha me acordou
E arrastou-me até a porta,
Novamente tocada pelo
Inconsciente Coletivo

Maior e mais forte
É o Inútil Expressivo.
Basta apenas vontade para me matar,
Mas ele é pacífico.

O senhor Individualismo de Massa
Tem sofrimento específico
Diariamente me acorda com a campainha e
Esbarra-me na entrada de seu edifício.

Ele vem em casa reclamar
Da praia já não ser mais a mesma.
Que hoje em dia há arrastões
E muita gente feia.

Mas eu o compreendo mal
Para saber se falamos da mesma praia
Da porteira de mão de obra,
Ou do fundo de seu quintal.

Com certeza
A praia não é a mesma,
A onda que vem
Quando volta é correnteza.
Só não enxerguei, nos arrastados,
Essa idolatrada beleza.
E, principalmente, desde que chegaram
A praia não é mais a mesma.

Viemos todos cuspidos por este mar,
Incomoda-se com sua própria essência,
Eu não me incomodo com a minha,
Vá à praia e deixe minha campainha.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A casa abandona



Você já não está e eu fico te recriando,
Fazendo questão de manter uma saudade.
Feito quem sente falta de uma infância miserável.
Vivendo para compensar uma imagem fragilizada
Para que ninguém nunca sinta pena de mim
Como eu sinto do meu redor.
Dessas pessoas mal amadas e sem infância.
Das minorias na fila da degola.
Da minoria no leito de engorda.
Ou da maioria, essas pessoas mal amadas e sem infância.

Você já não está.
Não há mais aqui minha criança ingênua,
Tímida, estreando as roupas usadas.
Rezando justiça à deus antes de dormir.
E que sorria no campo minado.
Não aceitamos nunca perder o desafio pessoal para vida,
Nem para o amor
Que eu fico recriando em abraços, beijos,
Sexo, onipresença e transcendentalização.
Insistindo em me proteger atrás desse escudo imaginário,
Inutilmente.
Tentando achar explicação
Por passar o dia inteiro olhando para a parede suja,
Dando ouvidos ao Humberto Gessinger e
Procurando alegria nesses blogs de humor instantâneo.

Cansei de te recriar.
De inventar essa saudade obscena.
Vou recriar a mim mesmo
Pois é só o que há.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

-A-


-->
Odiei a norma,
A forma do motivo,
O incentivo a ação,
A munição de guerra.

A terra com dono,
O abando do pecado
Ditado por interesses
Que não nos merece, jamais engoli.

As portas abertas
Interessaram-se mais por mim
Que eu por elas

As portas trancadas
Não há chaves para todos nós,
Prefiro pular janelas

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Regresse à tua frente


Meu amor, volte-me e
Pare de bancar a retardada.
Faça esse cara parar
de bancar o retardado

Tua vida
Tem sido tão áspera
Que cegou
A faca que me cravou?

Pensei que me dera uma lição.
Aprendi por tanto pensar
E quando penso em lhe agradecer
A tua risada extravasa,
Sua despreocupação preocupa,
Teu coração ludibria seus olhos
(como quem olha fixamente a sombra que encosta ao fundo de uma caverna)

Questiona o significado de ser feliz
Como desculpas dadas.
Dá valor demais a isto.

Como tudo que se dá na vida
Só posso afirmar de mim.
E tenho em mim contido,
No corre dos dias tristes,
A vontade de ser criança,
Mas não volto.

Meu amor, volte-me e
Pare de bancar a retarda
Faça esse cara parar
de bancar o retardado.

Pensando que a vida renovou
Escolheu-me novamente
Em outro corpo
Como quem quer voltar a ser criança.
Me fode pensar que passara por dias tristes.

Era condição
Afundar-se no buraco
Que me tirou?
Pensei que me dera uma lição.

Não pense que meu amor é um regresso
Pois voltei para te lembrar
O rumo que traçara.
Na verdade só posso dizer isto
Por te encontrar no cruzamento
De mãos opostas

E tudo que poderá me dizer
É que isto é ciúmes,
Somente,
E nos dias de hoje,
Será seu único pensamento sensato.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Maturidade


Pensou que estava madura
Quando perdeu a vontade de
Voltar a ser criança.

Quando o coração opaco
Não impediu o sorriso

Na manhã de segunda
que não relutou a se levantar

No esquivo da crise

Quando se fez útil
Mesmo na merda

Pensou que estava madura
Quando notou
Quão curto eram seus braços,
Demais até para cruza-los.

Amadurecer, para ela,
Foi aceitar seu fracasso
Aceitar o fracasso de todo mundo.
Assim,
Convencera-se ser mais humana,
que amava mais.
Convencera-se até, isto, ser o único sucesso.

Tudo que plantou cresceu
Tomando seu jardim.
Se a revolta do mundo te inflamava
A paz de seu quintal lhe entorpece.
Se era fogo,
Hoje é vegetal.

Não se iluda, meu bem,
Olhe para nós dois.
Estamos aqui novamente
Pensando ser algo novo,
E somos,
Nada mudou.

A pressa lhe fez esquecer,
Mas, no tempo que resta
Finge finalmente entender com clareza.
Pensa que o mundo finalmente silenciou
Desde o dia que ficou surda.

Frangos escrotos


Ela o feriu.
Tirou toda a pena
Daquele frangalho

Depenado, dependente,
Bem não pensava
Queria sua pena de volta

Da janela eu fitava
Aquele frango pelado
Prum lado e pro outro
Com as vergonhas expostas

É ridículo que
As lágrimas dum frango
Vire goteira em minha cabeceira
Assim
Só consegue que lhe arranquem
Mais penas pelas costas

Já vi muito disso
Logo ele consegue a pena de uma galinha
Então não dormirei por mais um tempo
Porque daí ele começa a cantar,
Depois volta a ciscar.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Esperemos


-->
Esperemos

Há outros dias, melhores, que não têm chego,
que estão sendo feitos, ainda,
como o pão ou as cadeiras ou
As prateleiras das farmácias
Para não faltar remédios e preservativos
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
(sou eu e não sou, me entende?)
Que nunca acerta a medida exata
E vive excedendo os ingredientes,
quase iguais, mas não os mesmos.
Um descuido, um pensamento próprio e pronto
Desanda.

Não guardo nada para mim,
Vendo o produto para viver
E também já estou enjoado desse melado. (não sei como gostam dessa porcaria)
O pior,
Voltam muitas reclamações,
Até dos que rapam o fundo.
Não importa a satisfação
Querem receber pelo que pagaram.
(Queria ver se cobrasse por meu empenho, ah,
Sei lá também, se pá)

Na verdade eu queria fazer meu próprio dia.
Como quando eu fumo e preparo a janta,
Só bem depois lavo minha louça
Como quando eu acho graça da queda
Até começar doer e vir uma puta raiva
Como quando a ira cessa no banho quente
E saio andando pelado pela casa.

Porém,
Esses merdas não pagam direito seus dias,
Não podem,
Não há democracia com tanta gente esquisita.
Uns gostam de calor e outros de frio
E eu acho todos os amantes do calor um saco.
Agora mesmo
Estou torrando aqui, pelado,
Tentando dosar perfeitamente o pedido do cliente.
Caprichar é foda, chato e demorado,
Mas eu termino, tem que terminar.
Então vou descansar um pouco mais esperançoso
Esperando receber um dia justo
Feito quem espera, do correiro,
Uma encomenda
Paga com o próprio dinheiro.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Autenticidade variada


-->
Varrendo a calçada
Os prédios quase caem
Fumando na sacada
As ruas quase somem
Vagando no centro
as pessoas quase morrem
Dançando na festa
As neuras quase se extinguem
Num filme bom
As horas quase viram minutos
Num filme ruim
O cinema moderno quase vira luto
Erguendo as caixas
A exaustão quase vence
Recebendo salário
O mundo quase é perfeito
Interessando-me em alguém
Algumas razões quase se apagam
Desinteressado em mim
As cabeças quase são alvos
Na fila do médico
O trabalho humano quase ganha sentido
Na fila do crédito
Quase não sei porque trabalho
Lendo jornal
O mundo quase entra inteiro na minha sala
Depois, pensando sobre
Minha sala quase não existe
Com amigos brigando
A cegueira quase me toma
Com todos gritando
Quase fico mudo
Com todos cantando
Minha voz quase é a de todo mundo
Enquanto vivo
Quase morro
O que você vai continuar fazendo num segundo?

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Estacada

A quem se trai?
Traímos os outros, às vezes
Todo mundo,
O quíque da bola,
O restaurante rotineiro,
O programa predileto.
Mas egoísta que és
Jamais se trai.
Em dias voluptuosos fica vulnerável
Mais do que bradava o coração
Nos dias de certeza.
A convicção que havia desmancha
Para se refazer em cima de conseqüências. Arrepende-se
Sem se trair, ou
Como poderia não se perdoar?
A dor que tens na consciência foi premeditada
Mesmo que tenha engolido mais amargo que pensara.
Traição é a rasteira no vacilo
E não um tiro no pé.
Não se revista de sofrimento
Porque não combina com você
Desde o início soube que suas atitudes
Eram ornamentos do dia a dia.
Então deixe de lamentar
Os mesmo atos que por outras vias
Chamaria de conquistas.
Não se traí
Como poderia se esconder?
Vive a te achar cada vez mais sem graça.
Vive a te achar cada vez mais sábio.
Vive a trair sem ser culpado
E sente culpa por se trair. Não!
Culpa não há sozinho por que também não há lei.
Jamais se trai, viva
Que tu não és vilão.

“Fica tranquilo”

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A ingenuidade sempre será a maior vítima do tempo, meu amor

Por onde andas, meu amor,
Quando na intimidade de sua consciência?
Se os olhos que já me seguiram
Fogem apavorados feito nicolau.
Como se minha presença lhe afastasse a sorte.
Invejo tal sorte capaz de fugir.
Tu, tão linda, tens meu mundo de atenção
Tal astro que brilha até me cegar
E cego resta seu brilho a me queimar a visão.

Sabe,
O amor é muito complexo para decifrá-lo embriagado
Soluçando por tanto ser amado,
Você enchendo meu copo a cada instante.
Saciado a ponto de ser ingrato,
Um viciado que varia as doses da mesma coisa.
Só você notou a decadência em nosso amor.
Para mim, bebum,
Não via problema em uma felicidade desconexa.

Mas agora,
Meu peito que recebia o calor de seu sono
Esfria a cada lembrança que me vem,
E o incômodo me obriga a entender o que se foi
Para seguir em passos firmes sem cair no mesmo erro.
Confortei sem confortar,
Tornei injusta nossa relação por
Arrancar-lhe as asas para lhe por sub as minhas,
Sonhar redundante pondo paredes em nossa volta,
Colocar cozinha, sala, quartos e dois banheiros.
Chegar em casa lhe dar um beijo
E ajudar a lhe tirar da tristeza quando houver,
Quando os cachorros não tivessem o feito. E claro,
Viajar nas férias com o aperto de nossos bons empregos.
Quanto nada eu fui capaz de te oferecer.
Porque um buquê de promessas se
Apaixonei-me de imediato no impacto com
O concreto sorriso seu?

Só entendi a grandeza de nosso amor
Após estar em queda livre dentro dele.
Diferente daquele da globo as 21h
Que indecentemente lhe propus.
Não era o mais óbvio.
Foi o melhor que a incompreensão nos ofereceu
Sem segredar plenamente.
Eu, como indivíduo livre e súdito seu,
Deveria ser o primeiro a lhe incentivar ao sonho,
Ou incentivá-la a sonhar.
Tão simples quanto notar beleza nas coisas.

Hoje sei muito do que não sabia.
Entendo o bem(nãão!?) que fez ao separar-nos
E curar aquele amor doente,
Reparar todas as injustiças que me ornamentaram.

Com pesar entendo seus olhos fugitivos,
Por isto sofro além da sua falta,
Sofro sua condenação.
E como último respiro
De uma consciência amante afundada na lama
Resta imaginar, meu amor,
Por onde andas
Na intimidade de sua consciência.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Ressaca

Hoje acordei cansado de ser eu,
Caí em mim sem saber aonde caí
Tonto do tombo, incomodado com o lugar.
Sem vontade de mudar,
Sem ter o que mais mudar,
Incapaz de preservar sequer um sorriso falso.

Acordei sem saber quem era eu.
Como se tivessem me desenraizado durante o sono

Acordei sem saber o meu gosto.
Vasculhei todos os downloads de música
Mas não me encontrei,
Só achei saudades de bons amigos que dançavam lá dentro.
Então, na esperança de um insight num devaneio,
Vi um filme que me aspirava a ser,
Mas ainda não era, na verdade era ainda mais distante.   

Acordei sem saber o que possuía.
Toda a bugiganga que alguém pode acumular
E uma a vontade de empilhá-las e tacar fogo,
Na TV, no ventilador, na moto e na geladeira.
Então porque diabos eu não consigo riscar o palito?
Porque não deixo esta lentidão e volto a ser chamas?
Pode a vontade ser mais frágil que a dura lei vital?

Ah, o apego a cela
Compaixão ao próprio assassino.
Não fui eu sozinho que me pus em desgraça,
E também não será só que conseguirei sair dela
E mesmo assim me faltam considerações.
Tudo que me entretém me tem
E não me solta nunca mais.

Não escolhi saber da riqueza que não tenho,
Almejar sempre o futuro conformismo.
Hoje me conformo com a riqueza do mundo que não tenho,
E talvez só por isso

Hoje eu não queira ser eu.