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sábado, 29 de setembro de 2018

[CONSELHO]
a infelicidade está na negligência.
aquela irresponsabilidade que rasga na consciência.
o que deixou de fazer,
o que fez mal feito, ou
porque disse isso? porque não disse?
o sofrimento do mundo é tolerável.
a verdadeira dor mora na culpa.
o tempo passou e você foi derrotado mais uma vez.
quer ser feliz?
Não fode.
sempre tem um que nasceu antes. ou chegou primeiro
para nos enganar
teus olhos romperam como um lacre foi quando? então,
mal inaugurou esse enxergamento colorido e
já o chama de consciência.
saco cheio dúvidas com preguiça de ter dúvidas,
ar que enche a sacola do mercado antes dos pacotes.
vê, vê, vê e vê
sem perceber que o mundo e maior que si.
por só olhar espelhos,
por só encontrar no mundo as falhas que está si mesmo.
se engradeceu demais,
e desconsidera a cidade e seu ar seco.
fingidor de certezas,
as telas da TV pulsam pra você,
os panfletos promocionais vibram em tua presença,
os politicos te sorriem e o felicita
e os donos das lojas e fábricas te abraçam e te beijam.
mas sozinho é como um morto,
uma visão apavorada com a auto-imagem
que é mais fácil não ver.
de que valeu lhe abrir os olhos?
minha liberdade espreguiça na
medida que disrrezo as rezas que já rezei.
que disprezo aquilo que já prezei.
e desprendo a quilos que me preguei.
e ainda nem vejo nítido,
e ainda nem digo claro,
e ainda nem sinto tanto.
mas o prazer de uma conversa vale uma vida inteira
e mais três horas de espera.
a gente tolera o que o Beto fala na Igreja dele
porque também temos os nossos crentes
e a nossa fé.
reconhecer-nos ingênuos é o maior ato de amor ao próximo.
reconhecer que até mesmo amar é vaidade.
mas há um tipo de felicidade que vive no neutro, e não no outro.
que habita as conversas simples do dia a dia, e me encandeia.
que circula as horas sozinhas pelos caminhos
e se intesinfíca em risadas despropositadas e sem sentido
que mesmo eu, 99,9% ignorância, consigo assimilar
e ter meu desejo de viver mais e mais intocado.
Já a evolução é só uma consequência lúdica,
praticamente teatral, de equilibrar
as descobertas sujas que fazemos sobre o mundo
nesse meio tempo de existir sabendo.
é uma eterna pavimentação de nossa própria ladeira
minha liberdade espreguiça na
medida que disrrezo as rezas que já rezei.
que desprezo aquilo que já prezei.
e desprendo os quilos que me preguei.
e ainda nem vejo nítido,
e ainda nem digo claro,
e ainda nem sinto tanto.
seja eu o paladar infantil que se refina
ou o rio seco cheio de memórias, reservo-me
para além de uma caixinha lotada de papéis canetados.
esvazio-me para fazer parte do todo,
e complementar o nada.

maldito poder de merda

ao descobrir uma porta secreta no vale doce da Sucussena Sonhara Paraisense o menino Arnaldo não hesitou em puxar a maçaneta. vagava perdido por muito, tipo Alice ou Parrish, numa selva mágica ou apenas desconhecida que foi completamente sugada para dentro da portícula que funcionou mais ou menos como um aspirador de pó dos deuses. tudo ficou branco como num clipe musical com orçamento baixo restando apenas um bilhete em cima duma cadeira toda branca. *teu prêmio por suportar vivo adversidade por adversidade do Vale Doce da Sucussena Sonhara Paraisense será voltar a terra de teus pais no mesmo instante que partiu buscando por aventuras. ah, também lhe darei um poder, o que desejar. atenção: uma chance, um desejo. beijos, ninguém.*. Arnaldinho fugiu de casa porque sua familia nao o entendia e também porque ele nao entendia sua familia como bem descreveu o brega do Renato Russo. cerrou os olhos, tapando aquela coloração azul que tanto encanta as professoras do pré, e pensou, como quem fabríca, as seguintes palavras: quero ler pensamentos.
Conheci Arnaldo agora a pouco ali no centro. ele perguntou se a minha latinha estava vazia. pedi pra ele esperar um pouco, ainda havia uns goles. então nesse tempo me contou sua história, já faziam 30 anos desdisso. impressionado eu perguntei se ele não utilizava seu poder em benefício próprio. Arnaldo respondeu:
-Que poder? ninguém pensa.

ração no pote

"...Qual o problema d’eu querer explodir tudo? Pelo caminho que fiz parece o mais sensato a se fazer. Ou me contentar, fazer o que. Fingir que minha árvore genealógica inteira adorou sacrificar suas vidas como mão de obra barata e viverem do mínimo para bancar a vantagem do playboy. Dizer que honro tal esforço com minha felicidade de suvenir. Consumir, consumir e consumir mais um pouco até eu não lembrar mais que as pessoas felizes estão destruindo o planeta. Aceitar que eu patrocino essa fortuna desregulada, o apocalipse ambiental e acreditar que meu singular esforço é o avanço da luta. Acredito na luta, mas não consigo comemorar nada vendo que se um pobre deseja algo (que provavelmente é um ideal asséptico imposto), tem que se focar por anos, olhando as infinitas possibilidades de vida vazando, e isto equivale a uma atitude impulsiva do burguês e no fim, lá se vai a vida. E são a maioria do mundo e a maioria em condições que me impossibilitam de reclamar da minha sorte. Gosto de viver e ver as coisas, de aprender, de pensar, de sentir tudo isto e ainda buscar seja lá o que for. Mas é muita tiração, tipo, enquanto isto os ricos continuam lindos, vivendo bem as nossas custas e achando natural e criticando, feito um gato ingrato ganhando carinhos e ração no pote. Não, eu não te odeio. Eu não te conheço. Alguns gatos eu chego até a amar. Mas qual o problema de explodir tudo? Eu nem consigo mesmo haha é que seria tão prático. Ou você vai parar de comer a ração no pote?"
ouvi boatos teus,
estão contando seus erros por aí.
até agora foram quatro,
erros nossos foram quantos?
eu
que amava você errada,
você em fúria
descomposta, maluca, desnorteada,
a olhar com a raiva
de quem perde algo importante
e se gasta à recompor-se.
tão humana.
eu
que era a te olhar inteira
a te ouvir toda,
restou-me denúncias equivocadas
dos erros que nao cometeu,
mas que todo mundo comete.
inversão dolorida,
perdi as tuas dúvidas
e sobraram as dúvidas sobre ti
como a transparência turva de um vidro fragmentado.
não mexo e não me corto
mais.
ouvi boatos teus
que já não sei quem é
e fiquei curioso pra teconhecer.
ouvi boatos teus
e durante a porra do dia inteiro
acordado sonhei com lembranças.

intimidado

sexo vazio, alcool, drogas e vaidade. efeitos da solidão. é irônico os sintomas serem os mesmos dos niilistas. os mesmos do depressivo. do alienado. eu me sinto bem mesmo nos achando um absurdo. não sou nada disso. eu me considero um otimista que só vê o lado ruim das coisas.
é por isso que as pessoas precisam de familia. precisam de igreja. de time de futebol. de um grupo reflexivo. o segredo da felicidade ta nos laços afetivos. nessas mentiras gostosas. nas propagandas de margarina. nos folhetinhos das testemunhas de Jeová. no mundial do corinthians sem libertadores. no encontro dos golzinho rebaixado. felizes como um cardume de atum.
dia desses eu sonhei em ter um filho. e no sonho minha vida não era minha, mas a alegria sim era minha e era dobrada. então lembro das condições atuais para se ter um bebe, pois é, tá foda pros que virão. de mim não vem. e sei que sexo vazio, alcool e drogas foi uma escolha consciente tanto quanto minha consciência torpe pôde assimilar, assim como andar sozinho é uma escolha variável. ser triste é apenas um efeito colateral que bate num momento ou outro. acho que é menos pior do que os que são tristes porque se sentem atacados pelos iguais, intimidados pelo seu próprio grupo ou pior ainda, por grupos inimigos.
sentimentos descontrolados são sinais de desatenção
desespero
é consciência dormente.
pro mendigo dei desespero
mais um real e 35 centavos.
oscilo os pensamentos
felicidade sem porque é desconcentração.
um apaixonado
no meio da rua abraçou o morador de rua
que recebeu amor quente.
novamente eu
favorecido pelas circunstâncias
fazendo de tudo
em únicas ações possíveis.
entender é doído,
a felicidade é burra.
duvído, e a justiça
do que será?

aquela impotencia (sentindo-se um bosta)

hoje em dia não se quebra mais vidraça. você se sente vigiado demais pra isso. tomar uma única iniciativa pode arruinar a imagem de uma vida toda. ignorantes, mas civilizados. pode dizer castrados também. no meio de muitas pixações ilegíveis estava escrito "fascistas não passarão". tão pequeninho, era de dar dó se comparada as gigantescas faixas estendidas entre prédios na revolvente madrid do ódio durante sua guerra civil. NO PASARAN!. guerra civil jamais. preferimos duma forma mais dominadora. duma luta velada. de evitar uma guerra civil durante uma guerra civil. a gente não fala assim, mas o tráfico é para nós o que o petróleo é para síria em termos de geração de interesses comerciais internacionais contraditórios. os mortos por ideias são grãos de areia no cemitério dos assassinados. você sabe bem disso, tem tiro, tem bomba, tem assaltos, tem uma pilha nova de corpos todos os dias, tem campos de concentração super lotados, tem um lado e tem o outro lado. é guerra sim. mas também, tu vai fazer o que? se colocar uma faixa ela vai ser retirada em menos de 2 minutos. se quebrar uma vidraça vai ter que pagar e ta caro pra caralho o vidro. e numa merda dessas é bem capaz de tu perder o emprego. aí fudeu de vez. vai morar na rua e virar carvão de playboy chapado. evitamos a guerra ao mesmo tempo que a toleramos. evitamos a violência escolhendo caminhos e horários e funções. e para entender os protestos pelo caminho se faz necessário um bom conhecimento em estética. você vê algo e pensa que foi como um soco na cara. mas não foi. o ônibus que é tedioso demais, como a vida. soco na cara é outra coisa que evitamos tolerando. tem um grafitte que é lindo ali na jk: A INDIFERENÇA MATA. bem imponente em letras de forma vermelho sangue dominando a quina. o grafite é tão bonito, questionador e bem feito que você nem repara no trabalhador/mascote com roupa de vaca segurando uma placa da sanduícheria debaixo dum Sol escaldante na calçada da frente. mas fodasse porque o público alvo são as crianças mesmo e essas sim são atingidas na mosca. é a guerra comercial. eu imagino a pessoa por baixo daquela fantasia lendo aquela frase o dia inteiro decepcionada com a humanidade das pessoas. e também o imagino pegando seu pagamento e sorrindo pras notas. mas também, tu vai fazer o que? sair distribuindo dinheiro na rua?! ou talvez participar dum plano de educação efémero, pensar como o mundo seria sem pessoas de atitudes como a sua. mas não pensa em como o mundo seria melhor com atitudes mais agressivas defront à desigualdade. porque você é arriscado a perder tudo e perder tudo é perder o que? teus sonhos e teus confortos. o insuportável é só isso. todo o resto é passável sim e com nossa licença. e vivemos e respiramos dentro da guerra e de dentro da guerra fazemos transações comerciais e seguramos a pedra mirada para a vidraça aguardando a dominação messiânica porque se for igual a primeira mesmo que seja terrível pode ser superada como foi a primeira. mas isso não é alarde e sim um eco. ta bem explicado em letras claras, a indiferença mata. ser iludido o torna indiferente. e seguramos a ilusão da guerra que estar por vir, nunca esqueço, de dentro da guerra. mas também, fazer o que, né?!
Que tempos;
Criamos 
lendas ao contar piadas
e
Deuses ao mastigar o ódio
e o
demonio
sei que está no coração de cada um de nós

VERMELHASSO

nesses tempos tenho pensado muito com a cabeça dos outros. to com o lombo torrado de passar o dia ruminando no pasto das informações. escuto discussões alheias saindo da minha própria boca. e realmente eu não tenho certeza de absolutamente nada. tenho medo. tenho pressa. sinto como se passeasse no pátio dos sonhos. amarrado. e com vontade de cagar. e quando acordar será tarde demais. 
A verdade é que, apesar de ter armas, não tenho escudo nessa guerra de moral. nesses tempo sou um sonambulo tarado. com a consciência distraída. acompanho o uso das leis como um fiel que acompanha o pastor na bíblia, naquela parte da vingança divina. acompanho o jogo desleal como torcida em final de campeonato. E canto vermelho, que isso fique claro. que minhas lágrimas caem sobre uma bandeira vermelha!
Eu to sonhando aqueles sonhos que a gente vive outra vida. como numa encenação, com iscriptis, leitura de roteiro, coisa e tal. luto por uma glória do que desgosto. porque estou com medo. quero estar no bando. não se esqueçam, eu tenho lado. é esquerda!
É identico mesmo a sonhos esses momentos. estamos sendo atacados numa guerra nuclear e, de repente, aparecemos tomando café numa calçada em Paris sem nem perceber a alteração da cena. dizem que isto uma defesa da consciência, como uma resistência que esquenta até certo ponto e desliga automatica antes de queimar. Confesso que é o maior prazer quando a consciência desliga, mas é um baita desperdício com esse tiquinho de tempo que é a vida. logo mais nesses dias que minha consciência anda sem autonomia nenhuma. Ela anda quente como a resistencia. Ela esquenta vermelho. É vermelho porra!
Não me diga seu adeus, assim,
sem queimar a terra
depois da lavra
quem pulsa desejo de chuva
ama o céu negro
que brilha, assusta
e estrala
minha sede
é dessa água
que tu saliva,
que tu se lava.
da tua boca
quero essa
tua língua
com gosto de
mil palavras
não me diga seu adeus, assim,
sem antes
cavar uma vala

silêncio de merda

a noite não fala comigo, mas escuto vozes que complementam a falta do bombardeio imagético. a evidência é óbvia de que ninguém precisa de mim, de que posso dormir pra depois acordar, deveria bastar, pelo menos é um apelo sincero. quase longe alguns motores ecoam graças a gasolina. outros cachorros latem por estarem presos enquanto os cães de rua rasgam os sacos e espalham lixo pelo meio fio. e a mim ninguém reporta, nem o sono. nem bixo algum aguardando ração para cães adultos. nem o motorista bebado querendo comprar cerveja com a loja fechada. se eu fosse dono da petrobrás quem sabe quantos olhos eu teria. descansar depois de ter ajudado a todos com suas pressas inúteis. mas tenho apenas essa voz incalável que é a minha voz. lembrando de tudo que não é executável. meus mortos ressuscitam para morrer de novo toda noite. mato eles desde 20h no bar do Gê e eles sofrem comigo nesse inferno pela eternidade que nunca passa das 2h da manhã. eu não sou louco, qualquer mente é inquieta. são discursos, são ideias, são fofocas e desabafos, porém nunca piadas. o interlocutor ta mais para um cobrador de telemarketing. e as vezes é como só o telefone tocando por um tempão. tomo providências meio idiotas, tipo sexo e drogas. clichê, pelo menos eu dou risada. a cama está vazia e esvazia mais conforme o copo também esvazia. poderia ser qualquer uma hoje, gemendo, berrando, retalhando graficos de prazer no meu corpo com sua unha. não ouço vozes, mas é como se ouvisse.

vespera de feria

- Prefiro esperar no carro, sua mina é muito chata.
- Entra logo. A Evelyn fez a janta e não vai me deixar sair antes de comer. e outra, você nunca entra. pensa que ela não percebe?
- É só ela que tem essa mania de controle ou é você quem a obriga cozinhar?
- Ela gosta de cuidar de mim.
- Cuidado pra não chamar ela de mãe na hora da foda, se é que vocês ainda transam, ouvi horrores sobre casamento. 
- mais fácil eu confundir com o nome da sua mãe
- vou subir porque não almocei. o que tem de bom?
- é sempre surpresa.
- igualzinha mamãe. fala a verdade, as vezes você coloca as duas na mesma balança e se pergunta com quem é melhor morar?
- Cala a boca antes que eu desista do convite e você fique aqui com fome.
- Eu é quem vou cancelar esse boteco pra esperar a sobremesa. 
- seja grato, imbecíl.
- aaauuunnnnnnnnn
.....
- Você sempre comprimenta o porteiro?
- claro, vou fingir que não o vejo?
- coitado dele. comprimentar todo mundo, toda hora. quantas pessoas moram aqui?
- sabia que ele ganha pra isso?
- ta bom, venceu. só acho um absurdo cada coisa com que gastamos dinheiro hoje em dia. você paga até pra comprimentar o porteiro.
- Também queria morar numa casa com quintal, mas sabe como funciona os financiamentos. as construtoras.
(susurrando)- o casamento
- que?!
- as construtoras tão fudendo com nosso país cara. primeiro superfaturam as obras e depois as financiam com credito liberado pelo governo. é horrivel mesmo. você tem razão. 
- sem contar a segurança
- aposto que você tem um bonsai e um gato.
- não tenho bonsai, mas Evelyn se amarra em cactos.
...
- você comprimenta todo mundo que encontra no elevador?
- porque não?
- você comprimenta todo mundo que vê na rua?
- não são meus vizinhos.
- de certa forma são sim. é só relativizar a distância. aposto que odeia alguns que você comprimenta.
- e você não?
- venceu de novo. porque a gente faz isso?
- chama educação
- odiar os outros?
- isso é ego. e qual seu problema com comprimentar os outros?
- nenhum. duro é quando te convidam pra jantar.
...
-oiiiii. olha quem finalmente entrou na minha casa
- como está, Evelyn?
- acabei de fazer a janta. Gosta de escondidinho de frango?
- não como carne, mas um arroz e feijão pra mim já ta ótimo.
- ain, queria ser assim também. O Alberto nunca me disse isso, mas fiz bastante salada. Você come sardinha, ou ovo?
- É sério. arroz, feijão e salada ta ótimo. nem tava esperando sair de barriga cheia. como é o nome do gato?
- Esse meninão é o Obina. Alberto que escolheu o nome. tem mais duas que tão por ai econdidas, já aparecem.
....
- Como anda o trabalho?
- O que você sabe sobre nosso trabalho?
- Alberto só reclama do chefe de vocês, o Signori.
- Também me incomoda. mas o serviço em si também não tem o que elogiar. ficar organizando caixas, me pergunto até quando vão precisar de humanos pra isso.
- bate na madeira. aí vocês perdem o emprego.
- melhor que planejar cursar lojistica para me tornar gerente.
- O Alberto ta pensando nisso.
- Ele sabe, amor.
- É, eu sei. to zoando ele mesmo. olha, mais um gato.
- é uma gata.
- Você se sente como a mãe dos quatro?
- mas eu só tenho três gatos
- eu sei. to contando com o Alberto.
- Hey otário. você vai ver a mãe de quem vai sentir alguma coisa se continuar falando asneira.
- Só você que não riu.
.....
- Evelyn, muito obrigado pela janta e pela sobremesa, realmente eu não esperava. pode deixar que eu vou cuidar do seu marido tão bem quanto você cuida.
- que isso. aparece mais aqui. na próxima eu preparo algo especial sem carne pra você
- pode deixar. 
....
- e ae, o que achou?
- preferia sua mãe. 
- to falando sério
- amanhã é dia das mulheres, dá um presente pra ela. o divórcio

anamnese

- Doutora, acho que tem razão. mesmo em dias como esse em que o Sol nos torra o couro das orelia, não tenho coragem de gastar um real comprando sorvete. mesmo morrendo de vontade. a boca da aquela salivada molhadona enquanto olho o pivete se lambuzar com um cascão três bolas. mas quando vejo a situação da minha carteira, sinto que o meu dinheiro só serve pra comprar cerveja. eu sou alcolista, touchet.
- isso lhe ocorre muito? trocar objetos que lhe proporcionariam prazer pelo desejo de sempre?
- acho que sim. tenho reparado mais também. você vem me dando uns toques. tem feito muito calor, a gente precisa hidratar , né. e parece que os dois competem na mesminha modalidade de refrescancia. mas imaginar que com o dinheiro de um sorvete eu compro duas latinhas...pô, num dá, né, a concorrencia é desleal, doutora.
- a ultima vez que isso ocorreu você tinha quanto na carteira?
- muito dinheiro doutora. mas eu sei que depois que tomar tanta cerveja vai passar a vontade do sorvete.
- e porque vcê não toma o sorvete antes da cerveja?
- doutora, é outro problema que tenho reparado também. sempre que chego no mercado eu já to bebasso.
qual o tamanho do meu ego?
bom,
durante um tempão acreditava que meu destino era salvar o mundo.
mas um dia eu fiz umas contas
e meio que me liguei que não seria capaz 
né, de salvar o mundo sozinho.
fiquei arrasado, claro, foi o dia em que
a humanidade perdeu sua única esperança.
tem acontecido esses breus;
as palavras desabam
como se eu as empilhasse
ao invés de alinhá-las.
e falho o tento de
dizer das coisas
que não sei.
to com dúvida
sobre a dúvida.
to alérgico a razão.
tem um afundado no sofá
do tamanho de minha bunda.
se eu tivesse um deus,
agradeceria a ele pelo que
isto significa.
Sem deus
tenho que olhar pra mim
e agradecer a este ser
que não inventou o universo,
tampouco a luz, ou a vida dos animais
e das plantas, nem as sensações
e muito menos um sentido.
tenho que olhar pra mim,
que sei que é bobagem,
que tudo foi mais ou menos fácil,
com um brilho pobre e oficial
de mais um do clube dos troxas,
e que para os acontecimentos principais
ninguém se importa.
fica meio vago dizer,
mas é tão bom apreciar
sabendo.
nunca espera,
impulsiva como mercúrio,
nasceste comendo Era
apenas mais um dia e
aflorava na primavera,
“desorganizar o agrupamento cósmico,
pudera!?“
teu destino escolheu por hábitos frios,
e o meu por engolir tua terra.
chapou de tristeza.
perdeu a hora, o rumo
o prumo e a cabeça.
sentiu-se antiquado:
sofrer é sofisticado demais,
deve ter algum aplicativo
para ajudar os de menos tato.
foi no bingo
ganhou trezentos reais
e chorou
porque era justamente a quantia
que faltou pra consertar
o amassado que nasceu de bebedeira
no carro dela e no portão.
chorou assistindo máquina mortífera,
depois chorou com o futebol que acabou
em brigas de torcida que nem era a dele.
chorou quando a mãe do Kauã Reymond
apareceu no palco do Faustão, na verdade
chorou só porque o Kauã tava chorando.
e também chorou em pelo menos
cinco quadros do fantástico,
- a guerra da cracolandia,
- o escandâ-lo da obra de escolas estagnada,
a imagem das crianças estudando
no chão de barro pisado duma cozinha o emocionou,
- a superação das crianças faveladas que foram
jogar um campeonato de futebol em barcelona
e ganharam fotos, camisas e bolas dos ídolos
- uma viagem do Zeca em Roma que o lembrou muito
daquela vez que passaram o fim de semana em Alvorada.
- Os misseis nucleares de Kim Jong-Un,
e se não der tempo?
de ficar lúcido.
que vergonha, não suportar.
chorar como uma represa
chorar pra dentro até transbordar
sabia o tempo existir,
mas não o quanto dura
até curar essa ressaca
que vem junta da loucura

mais um acidente de merda

parece uma mandala caótica, (é possivel isso? tipo minha personalidade?rs) é com a porra duma mandala caótica que o trânsito parece. a distância entre os postes, o ângulo das curvas, as paralelas, o revezamento das cores. tudo para alinhavar a manada no asfalto.facilitar a obediência com um padrão fácil de seguir. e vamos igual água atravessando o cano. energia correndo o cobre. somos nós percorrendo à ordem. respeito a velocidade, seguir linhas, desperdício de dinheiro, contaminando a atmosfera e sendo humilhados por luzes eletrônicas. abdicar da liberdade de escolha por medo de ser castigado, perder grana, têm nada a ver com respeito. se eu passar a milhão aqui com certeza vou ofender muita gente covarde que vão me ofender duma forma que não ofendi elas. é nisso que dá seguir tantas ordens, você fica entupido e quer ver todo mundo bitolado igual. e esses impulsos passionais ant-argumentativos realizam a irracionalidade humana, ao menos da maioria que é o importante pra forma uma decisão. sem essa de o ser humano inventou a luz, pisou na Lua, porque eu mesmo só sai duas vezes do Paraná e uma foi por apenas quatro horas. corta essa de ser humano. sou a minha experiência, não o protótipo, não a promessa, não a cultura.
evito auto-medicar meu ego com blogs ou noticiários ou sites de viagem. sei que posso me convencer. as teorias foram feitas pra isso. para arrumar amigos. já tenho os meus. inclusive gasto muito tempo baixando fotos deles e as abrindo no paint. a ideia é sempre inverter a intenção da foto. se fulano tá acariciando seu gato, redesenho-o esfaqueando ou martelando a cabeça do bichinho. se a pessoa tira uma foto na Itália, a refaço num circo dentro duma jaula sendo chicoteada por um leão com um público formado de iphones verdes batendo palma. se estão bebendo, brindando, as desenho como cientistas inventando cosméticos para usarem em seus rostos de barbie, sou rei do blush no paint. também fiz uma releitura de Édipo e a Esfinge com uma foto de minha irmã e minha mãe. tenho coleções temáticas separadas por pastas: comidas, viagens, animais, amigos, pagação. talvez eu seja o maior do mundo nessa arte. comprei um tablet gráfico pra me aprimorar. acoplei no PC pra continuar usando o paint. batizei essa arte de fotosobreposintencionada. acho que meu acervo tem mais de dez mil obras contando desde o orkut. Aquarela de Toquinho foi mesmo uma inspiração para as crianças. e a escola, a aula de arte. para quem eu agradeço esse mundo colorido de giz de cera?
apareço em centenas dos desenhos. Frida, Escher, Dali fazem sombras em meus auto-retratos. fiz montagem da foto familiar em que estou servindo um shot de sangue servido direto da cabeça de um bode pra papai, mamãe, vovô e vovó e os titios. tiro foto em frente de igrejas para desenhar incendios crimonosos com imagens satânicas. tenho foto assassinando o Luan Santana numa praia rodeada de rockeiros pequenininhos. e uma outra de celebridade é uma em que eu e a Claudia Leite morremos eletrocutados encima do trio elétrico. mãos e pés estourados e abaixo de nós uma multidão de capivaras gritando póparacompópóparacompóae. as duas originais eu tirei no mesmo dia, no aeroporto de guarulhos.
depois de um tempo as ideias vão secando. natural pro artista. a necessidade de nos reinventar tem me desencorajado. as fotos estão cada vez mais iguais, assim como as pessoas. porém ainda restam um ou outro plano futuro de fotosobreposintencionada. exorcizando um padre. prendendo um policial. mandando num politico. enquanto há vida, há tédio. 
há trânsito. um desenho harmonico e disfórmico. uma crônica compreensívelmente confusa. um pen drive cheio de música foda que evito escutar que é pra não enjoar. só tem pedrada, quero gastá-las em horas certas. fico na rádio massa, e a música sertaneja é minha comédia. eu entendo porque gostam dela. porque as pessoas não gostam de música, gostam de bagunça. algo que ofende os apreciadores de música, que são incapazes de ofender qualquer um. é só mais uma opinião contrária na minha orelha, prefiro rir. 
- Buceta!
pancada. no catador de papelão. no carrinho dele. levei foi tudo. tentei frear, pisei forte e só patinou até fazer voar, como numa chuva de confetes, homem, carrinho, roda de carrinho, latas pra diabo, muito papelão.o tempo do tiozinho trincar meu parabrisa na cabeçada e rolar mais uns cinco metros no asfalto. o carrinho que ele puxava era gigante. sofreu menos que meu celtinha.
eu vinha a uma milha por segundo e o mano a uns duzentos mil por hora. veio na descida , por cima da geringonça, sem tocar os pés no asfalto para controlar. o sistema de freio é uns pedaços de pneus amarrados na bundinha do veículo, dai quando o mano alivia o peso dele o carrinho tomba pra tras e o baguio raspa no chão até brecar. dessa vez não funcionou. eu vinha pela leste-oeste com o sinal verde pra mim. o mano desceu chutado a paralela da praça dos japoneses com uma carinha de que também sabia da fudição com antecedência também. era meu espelho de lamentação. 
a rua deserta de repente tumultuou. respirei fundo. a mão tremia. o que me põe inseguro. outra respirada dentro do carro turvo, trincado,menos abalado que eu. um intrometido me abre a porta roubando meu momento transcendente.
- você ta bem?
- to legal. pode dar um espaço, por favor, pra eu sair do carro?
ajudou puxando meu braço sobre o seu pescoço. por um momento esqueço do acidente para desejar por completo que ele me largue. deixo ele brincar de herói mais um pouco. desequilibrado a sensação de arrebate volta. a multidão embaçada, dividida em duas, escolhe-me na maioria para berrarem ao mesmo tempo infinitas opiniões inúteis.
- ele ta errado.
- ele atravessou o sinal fechado.
- ele ta fedendo pinga.
- estragou a frente inteira.
- quer que eu chame a policia?
- você tá bem, meu filho?
só comentários horríveis tecidos em meu favor. eu tava correndo, estava bem, tinha um homem estatelado no chão, e as pessoas conseguiam encontrar um ponto de vista favorável a alguém. e pior, se identificavam comigo. como se fossemos parecidos. cheiro de pinga? ao menos tem um cheiro. eu não tinha cheiro de nada. eles também não. estavam convencidos sermos copartidários dos bons costumes. eu não cheiro a nada. poderiam dizer que eu vinha do escritório. que eu vinha duma reunião. que eu vinha da casa de minha mãe. que eu havia acabado de deixar o filho na escola. não cheirava a nada. se ao menos cheirasse cachorro quente, lixo hospitalar, carniça de boi, mas não,era inegável que aparentávamos o mesmo grau de normalidade comparado ao tiozinho. com um nojo pessoal irrecuperável intervi bem de leve.
- gente, eu to legal e eu quem tava muito rápido, com licença.
ver o mano de perto foi o mais foda. sua pele cor de sangue, ralados lhe desenhando feito um mapa. ossos apontavam para fora do braço, próximo ao cotuvelo e no punho. ele tava consciente, desesperado, rodeado de amigos que estavam dando um T ali na pracinha. a maioria morador de rua. outra falação na minha orelha.
- olha o que cê fez co meu amigo.
- e se ele ficar paraplégico?
- quebrou o carrinho todo, olha isso.
fingi que nem escutei.
- senhor, depois você me perdoa, agora a gente precisa ir na upa urgente.
- eu não to conseguindo andar.
- eu te ajudo.
- Shawlin?! cuida do meu carrinho?
- Cuido, cuido. confirmando com a cabeça o amigo do catador.
peguei-o no colo. uns amigos dele me ajudaram. coloquei no carro. e dois caras entraram juntos. um com ele no banco de trás e outro do meu lado na frente. arrastávamos em direção a UPA.
- ele ta com outro ferimento além do braço?
- precisa de mais? falou com uma voz de braveza com espanto.
- se ele ta perdendo muito sangue. 
- ta perdendo muito sangue sim.
a conversa é sem jeito e a situação piora. o carro para faltando um quarteirão. do partida, uma, duas, três vezes e sem sinal de vida.
- vamo levar ele no colo.
ligo o alerta. a ideia era dividirmos o peso, mas os dois caras tavam tão louco que não davam conta nem de levantar o tiozin, muito menos de equilibra-lo andando. carreguei sozinho uma pessoa chorando um choro de dor exprimido e com constantes contrações no braço fudido. ele é leve, mas se meche demais e as feridas se fundiram ao seu cheiro de pinga nauseante a cada vez que eu o olhava. cansado passo na pela porta de entrada numa performance que pensei alguns segundos antes de cumprir.
- URGÊNCIA. URGÊNCIA. Um homem perdendo muito sangue!
mas ninguém fez muito além de olhar curioso o que acontecia. tive que atravessar mais uma porta para conseguir o efeito esperado. apareceu uma enfermeira. mais uma porta e ele esperaria no chão do corredor, juro.
- O que que você fez dessa vez seu Joaquim?!
- Eu atropelei ele, carrinho e a porra toda.
Ora, é claro, ele tem um nome. Joaquim. muito prazer, eu sou o antonio.
uma outra enfermeira chegou com a maca. descarreguei o Joaquim sobre. 
- vão cuidar dele? meu carro ta abandonado na avenida.
- pode ir. esse aqui já é de casa.
esse aqui já é de casa? de que mais formas Joaquim já deu entrada na sua ficha do UPA? perna quebrada? costela quebrada? pneumonia? tuberculose? coma alcoólico? sífilis? Joaquim é visivelmente surrado, vai saber. e essa intimidade da enfermeira para chegar assediando ele mesmo sem saber se ele estaria vivo dali a dez minutos.entendo sobre manter a situação calma, sobre controle, outra coisa é ser um idiota falando bobagens. queria bater boca com ela, mas era besteira. ela cheirava a luva descartável e alcool em gel. o lugar cheirava a doença e eu não cheirava a nada.
é raro encontrar pessoas legais no acaso. nisso tudo quem menos me encheu o saco foi o seu Joaquim. que terá os próximos dias piores que o meu. que já teve a vida toda pior do que a minha.
e piora. giroflex ligado bem do lado do meu carro. dois homens fantasiados de protetores cívil rodavam uma lanterna para dentro dele fingindo resolver qualquer mistério que não existia. seguiam fielmente um roteiro sem câmeras. uma peça mal feita de realidade. o carro tava arregaçado, rodeado de entediados, e precisaria explicar o porque.
- Boa tarde?
- Boa noite. o carro é seu?
- já to ligando pro guincho.
- já ligamos?
- como?
- o que houve com o carro?
com o carro? bom, eu não sou mecânico. tampouco burro de dizer isso pro policia. acontece que estava vindo da direção da UPA, com ares funestos, todo ensaguentado. tá que o sangue não era meu, mas eles não sabiam.
- sofri um acidente na leste-oeste agorinha. um homem ficou ferido com urgência e trouxemos ele aqui pra UPA. mas o carro parou de funcionar uma quadra antes.
- o senhor quer dizer que atropelou um civíl na Leste-Oeste?
eu não queria dizer fosse o que fosse. tampouco escutar. onde estão os roubos de bicicleta? cadê as crianças fumando maconha na esquina? deve ter algum playboy pixando muro, rex, vai pegar e me deixa em paz.
- você bebeu?
- hoje não.
- hoje não? bebe muito?
- só quando não dirijo.
Larguei a bebida há treze anos e quatro meses.´parei depois de cagar muito no pal tomando vodka, cerveja, vinho, whisky. lembro que na época abri mão de tomar me considerando fraco pra bebida. agora acho que a bebida que é fraca pra mim. só atrapalha os movimentos da minha loucura. coisa de ego, me serve. vejo meus amigos bêbados, não conseguem andar, não conseguem falar, não conseguem pensar, e apesar de conseguirem se despir são péssimos trepando. fora o cheiro de podre e o jeito que rasgam grana. são Joaquins privilegiados. mas jamais diria isto praquele porco. seria categorizado de bom menino. o mendigo arrebenta meu carro e eu ainda venho trazer ele no hospital dentro do meu carro. tudo isso tomando um suquinho de laranja. O que vc tava ouvindo? Bruno Mars? Jota Quest?. já basta aqueles otários aglomerados me incluindo em suas subespécies. só me falta esses vermes também me patriarem. 
Expliquei a porra toda duma forma que parecesse que o role já tivesse sido resolvido. atenciosamente sérios ouviram tudo o que eu disse. tomaram meu lado quando apenas quando descobriram que o atropelado foi um mendigo. (tive que falar sobre o carrinho de recicle). fizeram questão de dizer os favores que estavam me fazendo por me fazer perder só um pouco mais de uma hora lendo e assinando ao invés de tantas outras que poderiam me fazer perder.
O carro subiu no guincho. todos pararam pra ver. um guincho trabalhando é elegante. a traseira do caminhão levanta e conecta na rua. vira uma rampa pro celtinha sem frente servir de enfeite mecânico. é quase o transformers, ruim de briga, mas é bonito. apanhou prum carrinho de sucata. o giroflex amarelo sobrepondo o giroflex vermelho iam aparecendo com mais vida conforme o dia dava fuga. a cena hollyoodiana cheirava a óleo queimado. e os dois homens cheiram a cera e ódio. o caminhoneiro cheirava a graxa suada e eu não cheirava nada. e as primeiras estrelas começavam aparecer na direção da UEL.
novamente seres humanos me observando. dessa vez com pena. mereço. 
- perderam o cú na minha cara?!
sou inofensivo mesmo. os policiais rindo vieram me liberar para pegar carona de caminhão.
- pode ir garotão. mais cuidado, viu o que pode acontecer.
- claro. muito obrigado pelo auxílio senhores. foi estranho tudo o que houve hoje. não sei o que seria sem a vossa ajuda. muito obrigado. posso fazer só um último pedido?
- o que?
- uma foto nossa.


numa noite óbvia
de estreles, lua e escuridão, 
empanturrado de tédio
pelo alcool de sempre,
variou o copo,
o movimento do corpo,
num brinde 
ao novo.
encheu por vezes,
virando em goles,
bebeu amor 
até chapar;
bateu estranho no estomago,
irritando 
feito uma consciencia oposta, 
que ameaçou escapar,
mas foi engolida de novo
e de novo
numa demonstração desnecessária
de força,
numa interpretação equivocada
de fraqueza.
um sabor que só tem 
numa específica fruta
vibrava 
junto a um calafrio
que tomava por pira.
vago entorpecer,
rindo sem porquês e
apontando beleza
dum satélite natural
que nada tinha
além de lendas.
depois de lamber 
as mãos e os dentes
a digestão.
extraindo os poucos nutrientes 
possíveis no amor 
ou qualquer outra substância alimentar,
se comparado ao montante descartado
de excremento puro,
sentiu o recarregar de célula por célula
em energia nova,
em sabor aprecível,
em sensação,
em potência suave
de querer.
as ruas não são ruas
com uma droga nova
as camas não são camas
com uma droga nova
as pessoas não são pessoas
com uma droga nova.
os vultos tem nome próprio
e os imóveis substantivos.
todo o sentido se resume
a doses cavalares.
fez do amor sua dieta irregular
e da endorfina sua pasta base.
tipo o que diz: a arte é minha vida
e abandona a arte de viver. 
a cada dia, ao hábito,
somou um motivo diferente,
uma razão lúdica,
até exceder o saudável,
os hormônios também
entrarem crise existencial
ou esgotá-lo 
seja lá do que coisa etérea seja feito.
outra fome (ou a própria vida)
voltou a bater
numa época que o estomago
negava o que tivesse fibras
contentado em viver de papas.
o inconsciente o fez o favor
de mastigar os sentidos por ele
ignorando 
a pele seca e pálida,
os olhos vermelhos e fundos,
os cabelos secos e quebradiços,
os braços moles e finos,
feito nosso irônico corpo social
que tudo nos nega.
e o que dava tato
ao coração
passou a esmagá-lo
como uma capa de gordura.
deu um tempo na bebida.
mas nas noites
o sonhava abstinente,
tornando inteiro a falta,
matéria sem espírito algum,
impregnada de querência,
e ao acordar 
a alma presente tinha companhia
exposta à si mesmo,
e acho que é isso
é o que sempre chamam de doença.
o hóspede maldito.
e a cura
sempre um despejo.
sendo os olhos
a janela da alma mais próxima
do músculo vital possuido,
chorou muito para desasperar as vias
e molhar o caminho pelo
qual expulssaria 
sua própria maneira de entender o mundo.
o que viria era imenso 
pesado
como duas pessoas misturadas
por exageros,
e com garras afiadas de fincar nas paredes.
custou a passar na garganta,
entalou, e não podendo
puxar na mão,
encheu o peito até comprimilo,
expurgou-o
ainda que lhe arregaçando os olhos
que, aliviado, só via 
as lágrimas já saídas
e, mesmo que pouca, havia distância.
a poça que restou em sua frente
desta vez, era-lhe 
completamente alheia
por mais que gerasse um reflexo turvo
de si mesmo
ao olhar estranho para ela.
a luz forte do sol
foi secando a calçada.
a luz forte digeriu a poça 
em seu aparelho infinito.
a luz forte do sol
presenteou as ruas já secas
com um dia bonito
de tédio fresco.

sopro

integralmente frágil. do vento forte que corta a pele ao micro-organismo que derruba o corpo. descendente original dos homens fracos de cultura enganada. que por gostar do sabor da vida envaidece e quebra. o tédio me dói, a sede me dói e a injustiça me dá sede e tédio. acostumado a superar essa debilidade em meus jogos íntimos de palavras e crenças. makeup. de fotografar esta fraqueza apenas pelos melhores ângulos estou ficando neutro, virando uma transparência grossa. o grão de areia continua sendo arrastado, junto a trilhões de grãos idênticos, pela brisa leve que refresca a orla da praia, grudando em tudo que toca. 
a diferença que faço é minúscula, mas tenho sonhos absurdos de imenso e prazeres dignos de eternidade. inúteis como tudo que é feio. como tudo que é belo. os tenho mais que sangue e água dentro de mim.
de tanto tentar entender, de tanto tentar entender, de tentar entender...não entendi, e restam os mesmos rostos. cães raivosos. cães amorosos. 
as pessoas. a causa de tudo em que acredito. o mesmo vulto da mesma cara com a mesma chaga que eu. meu espelho sujo. trepando a mesma foda sem goza juntos. nesse broxamento de ser quem eu seria? o cara que goza na primeira bombada ou a mina que nem goza? um voyeur de foda mal dada? 
apenas mais um reagente químico. e com muita imaginação ou falta dela [deslumbramento coletivo? cultura? tradição?] a mesma vida respondendo a infinitas razões. a gente fica bravo, fica triste, alegre, de acreditar. enfeitamos o sentir. apenas para sentir.
sim. se me temessem ou me amassem, aí sim eu esperaria ansiosamente pelo que ainda vem, feito um empregado puxa saco esperando a bonificação prometida para poder com mais duas dívidas e ter mais umas duas coisas [pedras sonhando com britadeiras]. A falta responsabilidade ou conclusões me anestesia. não tenho talões, nem aliança. não existo totalmente. caminho livre pelas questões inúteis que para mim pode ser tudo e melhor. brincando de relativizar as importâncias. tipo o fantasma ocidental que assiste os vivos e debocha de tudo o que eles pensam que é vida. se eu tivesse um filho que chorasse e fosse a minha obrigação calá-lo e, sem propósito, amar incondicional. se devesse algo ao mundo, mas eu não devo. deformado social. 
nesse descanso de querer ser. retiro minha armadura de medo, meu escudo de ódio e minha espada de memórias quebradas e já me sinto aliviado.
precisamos alimento. precisamos moradia. precisamos pagar. precisamos trabalho. precisamos alivio. precisamos amor, difícil feito fogo. precisamos plano de guerra. e com o possível troco comprar coisas para passar o tempo como um relógio que usa pilhas, melhor, uma bateria viciada.
eu poderia equilibrar. forçar um discurso. cultuar um lado forte. saudar aqueles momentos depressivos superados. relembrar do futuro aos outros. narrar um vitorioso fotogênico ou uma derrota suficiente boa para que me descessem da cruz sem me quebrar os ossos. ainda assim não saberia ao certo dimensionar essa força. o que chamo de força sempre é suposição. agora a fraqueza posso senti-lá dentro dos ossos e também não tem grande importância.
espanto-me com os efeitos que ação consciente causa, por exemplo, lavar uma louça, ajudar alguém, e ainda não tomo tais feitos como mérito. é divertido. não existe nada mais divertido que mudar as coisas. a gente chega a chorar de felicidade. e a maior dor no que vemos está em não poder mudá-las. já dizia o comediante: é tudo uma piada. pode rir. se eu tiver um filho, terei que criá-lo e educá-lo para que o desgraçado possa rir, tranquilo, da banalidade da vida no meu lugar.
não precisamos de filhos. filho não é remédio. filho é a cura do que não é doente. bilhões e bilhões investidos em tecnologia de guerra e morte. e o que a ciência fez até hoje para melhorar o sexo com camisinha? sabor morango? do corinthians? efeito retardante? borracha extra-fina? a última, né. e fazer eu mesmo o mochilão rumo ao nada e sublime. ao caos. causando. até quebrar no meio do vento.

receita diária para um novo dia

des sociais, desimagine, procure o isqueiro, dê outra bongada, queime-se, toque-se, retire a pizza queimada do forno, retire a coca-cola congelada do freezer, revise todas as redes sociais novamente, acalme-se, lembre-se que não é de verdade, real somente o filme, a pizza, a maconha, a coca-cola e o sono, acenda o baseado, de play no primeiro filme que estiver na sua frente, morda a pizza, sinta muito, esqueça tudo, limpe a mão, reinicie a página com o filme travado, acorde cansado e sem sono mais cedo do que queria, beba a coca-cola quente, coma a pizza dura, de play no filme estranho, acenda o baseado, bom dia sol, revise todas as redes sociais e vá trabalhar ou salvar o mundo.
[para os de geladeira pequena ficarem frios]
nesse calor sem nuvens
não encha o litro
com água quente.
espere até que toda a água
que ficou esquentando
,parada, no cano
o abandone.
abra a torneira
sobre a mão sensível,
deixe a água rolar
e repare.
a água vai gelar mais rápido
pro seu alívio.
as vezes a gente não peca pressa,
peca na preguiça.
o arrepedindo 
pegou um uber e deu nota cinco ao inconformado
que havia acabado de carregar uma desiludida engraçada
que criou um filho respeitado e egoísta
que gamou e se casou em seis meses com uma vaidosa
que gostava de cozinhar ouvindo música com a amiga alienada
que rezava todos os dias pelos rejeitados
que se viram contando histórias ao melindroso
que devolveu o troco errado do cigarro pro desanimado
que reserva os pães amanhecidos prum viciado
que divide o pão já com manteiga com o agressivo
que livrou um covarde de levar uma surra na cadeia
que foi querer surpreender a esposa e foi preso por um solitário,
vovozão daquela florzinha invejosa
que fez questão de embrulhar o presente da titia arrogante
que regou as plantas enquanto sua vizinha preguiçosa viajava,
que consolou um cara ansioso por ter broxado três vezes,
e só então esse era um completo inútil.