nem justiça, nem compaixão são inatas, ambas são aprendidas no acumular das experiências. e somos injustos mais experientes que amantes. chega até criar calo no zóio. nem sempre fui tão conformado assim.
Lembro da ONG, a escolinha de futebol. Você já viu algum treino de futebol com intervalo pra comer pão com mortadela e tomar suco? Ainda bem que esse tinha. O café da manhã em casa era mais sem graça, meus pais sempre mastigavam correndo, bronquejando para alinharem o redor antes das 7. Eu usava um uniforme que já foi do meu pai, do meião dobrado para esconder os furos à camiseta socada para dentro do shorts para alinhar, tudo muito largo num tico de dez anostodo, mas todo combinando, amarelo-azul-amarelo-zul-amarelo. lembrava o segundo uniforme boca jrs. sem simbolo, apenas o patrocinio da camel. na época só consegui relacionar a marca às antigas Willians de Prost e Mansell. não havia RedBull ou Monster para mascarar o jogo interno. pensava que Camel era ligada ao esporte sem entender ainda a dinâmica do lucro com o espetáculo.
Apesar do meu uniforme ser bonito passava quase desapercebido. A maioria da mulecada usava uma camiseta oficial da inter de milão dada pelo próprio Ronaldinho, apesar dele não ter ido na entrega. desde a época ele já preferia construir estádios à hospitais. como o santos nada ganhava ele era meu ídolo. Meu azar é que mudei pro Erasmo só depois do projeto Ronaldinho presentear todo mundo. fosse na favela do Rina, do Capuava, do João Ramalho, Elba ou a favela do sorocaba, todos vestiam a nove anil-negra listrada que mais chamava atenção pelo escudo bordado e pelo adesivo refletivo escrito original. fodasse o Ronaldinho. aquela altura já havia mudado 12 vezes de casa, além de bater nas casas domingo de manhã segurando uma pastinha e vestindo social. acostumado a não ser igual, a ser consolado por um livro antigo de promessas, organizava minha própria lógica da engrenagem.
Se eu não tivesse naquele projeto, fala pra você, eu ia ta jogando bola na rua mesmo, assim como eu fazia antes. gostava era de jogar bola. não vendi pedra por preguiça ou medo de levar uma surra de papai. a mulecada que vendia droga jogava bola também. mas gostavam de ganhar dinheiro, conceito e jogar bola. eu queria ser invisível para ninguém me conhecer quando eu passasse de sapatinho engraxado oferecendo um folheto que fala dum paraíso. eles iam pra escola sem ligar pra aula, nota ou qualquer outra obrigação que o professor tinha para fechar seu bimestre. eram inquestionáveis e respeitados pelos alunos. comiam pão com mortadela comigo na ONG e conversávamos sobre namoradinhas.
Antes de comer fazíamos uma roda para rezar o pai nosso e ave maria. por não ser católico eu só fazia o pai nosso e sem o sinal da cruz. por não ser católico eu achava que todo mundo que continuava rezando a ave maria ia se fuder no juizo final. eu não, eu sabia da verdade. Mas naquele espaço tinha que obedecer o treinador e lhe respeitar mesmo sendo pagão. assim como na faculdade tem o professor. no exército o general. e na política o empresário. lá tinhamos o treinador. sujeito simples de tudo. rosto marcado, tímido, pontual, favelado, preto, e fervorosamente católico. [pobre tem arquetipo?!] Ele dizia que nos amava, mas não passava de mais um narcisista tentando sobrepor a culpa de ficar enchendo o cú de cachaça e depois bater na esposa. Ele tirava da gente para repor o que o divórcio tirou dele. a ex-mulher foi com os filhos pro interior e o deixou sem nada além da vida. se você estivesse no lugar dele a única coisa que conseguiria enxergar em volta era criança pobre. tem gente que não adquirir consciência com algum socialista burguês de mais de século. a miséria ta cheia disso. a fé dele aumentou vertiginosamente a medida que cava o buraco para enterrar seus traumas. espero que as coisas dê certo pra ele. ele é melhor treinador que marido. vai saber o que jesus aprontou no céu. ele amava sua missão mais que a gente. seu bem partia disso e pra mim tava mais que bom. eu ainda corria leve atrás da bola e não carregava nenhuma cruz. ele se contentava com o que sabia fazer, ou nos agarrávamos a isso ou teríamos que voltar a jogar bola na rua. bem melhor o campinho com mão e mortadela.
Se alguém foi salvo de ser um assassino, não foi salvo de ser um Ronaldinho. Olhavam pra gente como os favelados que estão jogando bola ao invés de roubar. fodasse quem a gente era. tem esse estigma do pobre no rumo certo. se não for bom de bola, gostar de rap, samba, grafitte é chamado de massa. hoje em dia piorou, os curadores não fazem nem mais por eles mesmos, fazem pela arte. trabalham só com os pobres que eles querem. com o que vende pra burguesia. amor não tem nada a ver com futebol. eramos competitivos, preconceituosos, violentos e foi a coisa que pudemos ser. aquele treinador foi uma benção. ou então jogaríamos bola na rua sem suco de saquinho. eu falei que tínhamos direito a dois pães com mortadela? Estou sendo injusto. O treinador tinha seus amores e eu não era por chegar tarde ali. talvez se não crescêssemos nunca ele chegaria a amar todos. Mas ainda, pra ele eu era a massa, um crentinho que desrespeitava a ave maria. Eu sim amava aqueles meninos. fazíamos tudo juntos. pipa. bola. nintendo. fliper. porrada. amava com outras palavras para não parecer boiola. eu amava a eles como quem ama o próprio espelho. Amava, não amo mais. não sei nem se estão vivos.
Não havia nada melhor que competir pra valer. Jogar contra outra quebrada. mais tarde, quando fui para times mais sérios ficou frustrante, você tem que ser convocado para ir e se fosse reserva raramente jogava, mas lá na ONG todos iam ao jogo e jogava desde que sua mãe assinasse o bilhetinho. horário de mamãe trabalhar batia com a hora do treino. mas quando era dia de amistoso a gente ficava esperando uma hora em frente ao campo até o ônibus chegar. como minha casa era na rua de cima dava tempo pruma partidinha de street fighter. Eu era um privilegiado. dono do nintendo que ganhei de vovô. Eu era a droga dum privilegiado. calçava um par de penalty e desfilava todo orgulhoso durante o aquecimento na frente da mulecada de dry, kichute, randall, mas a gente se apreciava [óó que chuteira de boyzinho]. quando Felipinho falava que adorava super nintendo me coçava de vontade de ensiná-lo que não se pode adorar um video game. que adoração é coisa séria e só deus é digno dessa honraria. diria se ele não fosse me mandar tomar no cu. eu sabia que deus não castigaria felipinho por ser ignorante. desejava também o ser e nunca ter conhecido deus. quem dera e participar dos aniversário. dos natais. dos dias das crianças,do dia das mães e dos pais que nunca pude. me fudi por merda que eu nem tinha feito. parece que as duas vezes que rolou festinha de aniversário na biblia as aniversariantes pedem cabeças como presente. assim me explicavam o porque de eu não poder comemorar aniversários. A minha resposta para isso era mais dedutiva. deus nunca nasceu, não tem aniversário. por isso ele não quer que a gente comemore. pura inveja. sempre questionei tudo. para aliviar minha consciencia acreditei por conta própria que deus não punia as crianças da mesma forma que os adultos. pelo menos na biblia não descreve nenhum pentelho que foi empestiado por lepra ou que virou estátua de sal depois de bater uma punheta. até sonhava em ser o filho pródigo um dia. a culpa das crianças no antigo testamento tinha a ver com ser primogênito e era por alguma cagada dos pais, mas sou o caçula, estava menos enrascado. sempre questionei. minha tia ganhou da patroa uma caixa de gibi da turma da monica. estava ocupando espaço na casa dela. minha tia ainda não tinha filhos, deu tudo pra mim e meu irmão. fiquei obcecado. foi a primeira coisa não religiosa que tive acesso. desde sempre fui hacker. analisando esquemas, entendo função e copiando para a finalidade que eu quiser. agora eu não só desenhava, mas fazia meus próprios gibis com sufites dobradas ao meio e coladas com tenaz. usava bonecos de palito para ir rápido e não perder a ideia da historia. fazia isso na hora do culto. fazia isso na fila do postinho e fazia isso no quartinho da empregada. até que um dia me peguei contando uma historia que minha mãe era a patroa e eu é quem jogava playstation na sala grande e não muleque cabeçudo e cheirosinho. eu odiava ir junto com minha mãe, principalmente almoçar lá. minha mãe pensava que eu gostava porque tinha coca cola. eu odiava. ficar da lavanderia esperando feito um cachorro a familia bonita comer, esperar mamãe retirar todos os pratos sujos deles da mesa para nos servir os restos com coca. a partir desse primeiro desenho meus quadrinhos começaram a ter assassinatos. eles evoluiram em sentido, eem trama, a primeira lapidada do diamante. mamãe não gostou da minha criticidade. foi quando minha mamãe me proibiu de ver dragon ball e também me proibiu de fazer gibi na igreja. como ela trabalhava e eu ficava sozinho com meu irmão em casa, a gente nunca perdeu um dragon ball. o que eu perdi foi o interesse em desenhar. não voltaria a desenhar historias de torneios de futebol. meus justiceiros foram condenados por seus pecados contra deus e eu me rebelei junto.
Um dia exageramos no nintendo e na volta ao campinho o ônibus ja tinha ido. como só eu tinha nintendo nunca falava a hora de pararmos. deixava feliz eles se matarem de jogar [culpa do nuguetti viciado do caraleo. fudeu]. o jogo era em Máua. atravessamos o Capuava e a favela do Capuava onde paramos para uma tomar agua na Tia do nuguetti. um tio meu também morava por ali. permaneci gelado, queria ser invisível, se eu fosse descoberto tão longe de casa seria castigado. outra razão para descrição era para não ser visto pelo Robson. a ultima vez que colei ali foi uma treta por causa de fita. eu nem tinha nada a ver. Meu irmão foi comigo pegar a fita do ronaldinho soccer que emprestou pro Robson. mas dai o mano emprestou a fita pra outro. o grande do meu irmão pegou a caixa de sapatos que tinha todos os jogos dele e foi saindo. [Ta loco? leva só uma] [vai se fuder] [vai ver como a favela sobe] [e ce vai ver como a favela desce] dois crentinho discutindo por jogo. pobre é embaçado, não importa o traje. você usa o que tem. nunca se sabe. matamos a agua. trocamos a cidade e chegamos no campinho adversário. uns 40 minutos de correria. [vocês são loucos?] reclamava o treinador [Chorão, veste o colete, ta aquecido? se perder o jogo vai voltar a pé também] perdemos, mas voltei de busão.
Era mais que futebol, a gente se amava de verdade. pixando muro, vendendo droga ou passando o cerol. mas eu era a merda dum privilegiado que foi tão fácil. mal notei quando tive minhas próprias crianças para suprir minhas carências. Ao invés de futebol falava sobre guerras passadas para entretê-los sentados. Novamente o bem se fazia com moldes movido a egoísmo. não importa mais o que eles fazem, sofrem porque são condenados e eu tenho dificuldade de lhes explicar como. encaminho-os para um mercado de trabalho que lhes dê apenas a chance de viver uma vida sem necessidades. dar-lhes uma posição melhor que peão de obra na hora que forem construir um estádio. a consciencia alheia tem tão pouco de mim e tando de dor própria. eu queria incentivá-los a desobedecer a tudo, mas pra isso nunca me pagariam. O brasil já tem o exército que quer. a gente faz o que acha justo e assim avançamos na consciencia. adultos que nunca tiveram infancia e adultos que nunca sairam dela vivem juntos democraticamente. a justiça é lenta como uma caminhada nessa corrida individual. quando sairmos disso só conheceremos o amor próprio, mas será justo se todos tiverem. e todos terão suas ONGs para ajudar a si próprio e cantarão a música bom dia amiguinhos por ser uma atitude bonita. mas tenho saudade daquela mulecada que eu não mais.
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