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sábado, 29 de setembro de 2018

perseveronha

Que dia mal acordado. As pernas e pálpebras pesadas. A cama e os sofás confortáveis como sempre. A tv esbravejando sons agradáveis à meia luz das cortinas cerradas. Com fome e saudade dela é que lambuzei o pão com margarina pra depois molhar no café. 
Ser feliz não é ter uma vida incrível. Apesar de adiantar. As 8 em ponto tenho que ja ser outro. Alguém eficiente. Um que separa as chapas de madeira por tamanho e cor. Que as empilham ordenadas ao lado da máquina furadeira. Que junta as brocas ao centímetros marcando o furo. Sem pensar no pior. Pensa fuçando feridas mentais e memórias vagas sem reparar nos movimentos automáticos do próprio corpo a construir estantes. Estranho o jeito que cresce a consciência. Ingrata. Sei que a vida tem progredido e por isso seguro o molotov apagado. 
Na verdade pensar é uma palavra forte. É hora do almoço e sei que não pensei hoje. Sonhei demais pra pensar. Estendi meu sono até agora. Até Fernando pedir o martelo dele de volta. Não estou certo se o Julio me devolveu e se devolveu onde eu coloquei. De todo jeito respondo que ta em casa e ganho um dia para a entrega. Tento lembrar quando foi a última vez que usei aquela merda. Mas acho que não cheguei a usar. Os caixotes ainda são planos. Os quadros continuam encostados num canto. E eu prossigo priorizando os porres, a comilância e a preguiça a qualquer outro afazer.
É facil ser feliz com a cerveja custando essa pixinxa. O salário mínimo ainda dá se você só se importa com cerveja e maconha. Se você não pensa em ter família, usar cocaína ou comprar um martelo. 
Se eu quisesse mais do que tenho com certeza eu seria infeliz. O destino é medíocre. Estudamos para aprender palavras que nos ofendam. Entender é digerir, não escolher o prato. As dúvidas são intocáveis e o chandon azedo. 
Se eu quisesse menos do que tenho com certeza seria feliz pra caraleo. E muito grato por tudo.
O trabalho volta. Talvez eu não. Talvez eu nem exista. Que essa voz na cabeça do homem que opera a máquina seja um narrador. Um maquinista preguiçoso. Um antropólogo da propria história. Tão distante, capaz de usa psicologia reversa contra mim mesmo. Contra um corpo que só quer paz. Maconha, lasanha e cervejas. E quando sente incômodo é o de farpas que se alojam na pele das mãos. 
Pensar é sentir gosto de vento. Estou preocupado com um martelo que está seguro. Estou preocupado por levar uma vida que traz preocupações. De ter que pagar um martelo novo, não pelo preço, mas por aquele olhar de quem pensa [você não toma jeito]. E geralmente pensar é isso, uma opinião alheia. Uma mente julgando um corpo que se basta. É dar razão a inutilidade dos fatos.
Dito e feito. O martelo tava no jeito. Fiquei tão animado em expulsar a angústia dessa carne obreira e festeira que pendurei os quadros, fiz três dos sete caixotes que havia planejado e comemorei bebendo um fardo inteiro de latão que tava na promoção do mercado. Mais um dia sem arruinar tudo. Sem que minha desgraça sirva pra mal exemplo. Sem dever nada a ninguém ou levantar alguma preocupação. Sem ter que ficar buscando por respostas. Não é tão fácil como pensam ser feliz com pouco. Deus me livre se a maconha acaba.

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