parece uma mandala caótica, (é possivel isso? tipo minha personalidade?rs) é com a porra duma mandala caótica que o trânsito parece. a distância entre os postes, o ângulo das curvas, as paralelas, o revezamento das cores. tudo para alinhavar a manada no asfalto.facilitar a obediência com um padrão fácil de seguir. e vamos igual água atravessando o cano. energia correndo o cobre. somos nós percorrendo à ordem. respeito a velocidade, seguir linhas, desperdício de dinheiro, contaminando a atmosfera e sendo humilhados por luzes eletrônicas. abdicar da liberdade de escolha por medo de ser castigado, perder grana, têm nada a ver com respeito. se eu passar a milhão aqui com certeza vou ofender muita gente covarde que vão me ofender duma forma que não ofendi elas. é nisso que dá seguir tantas ordens, você fica entupido e quer ver todo mundo bitolado igual. e esses impulsos passionais ant-argumentativos realizam a irracionalidade humana, ao menos da maioria que é o importante pra forma uma decisão. sem essa de o ser humano inventou a luz, pisou na Lua, porque eu mesmo só sai duas vezes do Paraná e uma foi por apenas quatro horas. corta essa de ser humano. sou a minha experiência, não o protótipo, não a promessa, não a cultura.
evito auto-medicar meu ego com blogs ou noticiários ou sites de viagem. sei que posso me convencer. as teorias foram feitas pra isso. para arrumar amigos. já tenho os meus. inclusive gasto muito tempo baixando fotos deles e as abrindo no paint. a ideia é sempre inverter a intenção da foto. se fulano tá acariciando seu gato, redesenho-o esfaqueando ou martelando a cabeça do bichinho. se a pessoa tira uma foto na Itália, a refaço num circo dentro duma jaula sendo chicoteada por um leão com um público formado de iphones verdes batendo palma. se estão bebendo, brindando, as desenho como cientistas inventando cosméticos para usarem em seus rostos de barbie, sou rei do blush no paint. também fiz uma releitura de Édipo e a Esfinge com uma foto de minha irmã e minha mãe. tenho coleções temáticas separadas por pastas: comidas, viagens, animais, amigos, pagação. talvez eu seja o maior do mundo nessa arte. comprei um tablet gráfico pra me aprimorar. acoplei no PC pra continuar usando o paint. batizei essa arte de fotosobreposintencionada. acho que meu acervo tem mais de dez mil obras contando desde o orkut. Aquarela de Toquinho foi mesmo uma inspiração para as crianças. e a escola, a aula de arte. para quem eu agradeço esse mundo colorido de giz de cera?
apareço em centenas dos desenhos. Frida, Escher, Dali fazem sombras em meus auto-retratos. fiz montagem da foto familiar em que estou servindo um shot de sangue servido direto da cabeça de um bode pra papai, mamãe, vovô e vovó e os titios. tiro foto em frente de igrejas para desenhar incendios crimonosos com imagens satânicas. tenho foto assassinando o Luan Santana numa praia rodeada de rockeiros pequenininhos. e uma outra de celebridade é uma em que eu e a Claudia Leite morremos eletrocutados encima do trio elétrico. mãos e pés estourados e abaixo de nós uma multidão de capivaras gritando póparacompópóparacompóae. as duas originais eu tirei no mesmo dia, no aeroporto de guarulhos.
depois de um tempo as ideias vão secando. natural pro artista. a necessidade de nos reinventar tem me desencorajado. as fotos estão cada vez mais iguais, assim como as pessoas. porém ainda restam um ou outro plano futuro de fotosobreposintencionada. exorcizando um padre. prendendo um policial. mandando num politico. enquanto há vida, há tédio.
há trânsito. um desenho harmonico e disfórmico. uma crônica compreensívelmente confusa. um pen drive cheio de música foda que evito escutar que é pra não enjoar. só tem pedrada, quero gastá-las em horas certas. fico na rádio massa, e a música sertaneja é minha comédia. eu entendo porque gostam dela. porque as pessoas não gostam de música, gostam de bagunça. algo que ofende os apreciadores de música, que são incapazes de ofender qualquer um. é só mais uma opinião contrária na minha orelha, prefiro rir.
- Buceta!
pancada. no catador de papelão. no carrinho dele. levei foi tudo. tentei frear, pisei forte e só patinou até fazer voar, como numa chuva de confetes, homem, carrinho, roda de carrinho, latas pra diabo, muito papelão.o tempo do tiozinho trincar meu parabrisa na cabeçada e rolar mais uns cinco metros no asfalto. o carrinho que ele puxava era gigante. sofreu menos que meu celtinha.
eu vinha a uma milha por segundo e o mano a uns duzentos mil por hora. veio na descida , por cima da geringonça, sem tocar os pés no asfalto para controlar. o sistema de freio é uns pedaços de pneus amarrados na bundinha do veículo, dai quando o mano alivia o peso dele o carrinho tomba pra tras e o baguio raspa no chão até brecar. dessa vez não funcionou. eu vinha pela leste-oeste com o sinal verde pra mim. o mano desceu chutado a paralela da praça dos japoneses com uma carinha de que também sabia da fudição com antecedência também. era meu espelho de lamentação.
a rua deserta de repente tumultuou. respirei fundo. a mão tremia. o que me põe inseguro. outra respirada dentro do carro turvo, trincado,menos abalado que eu. um intrometido me abre a porta roubando meu momento transcendente.
- você ta bem?
- to legal. pode dar um espaço, por favor, pra eu sair do carro?
ajudou puxando meu braço sobre o seu pescoço. por um momento esqueço do acidente para desejar por completo que ele me largue. deixo ele brincar de herói mais um pouco. desequilibrado a sensação de arrebate volta. a multidão embaçada, dividida em duas, escolhe-me na maioria para berrarem ao mesmo tempo infinitas opiniões inúteis.
- ele ta errado.
- ele atravessou o sinal fechado.
- ele ta fedendo pinga.
- estragou a frente inteira.
- quer que eu chame a policia?
- você tá bem, meu filho?
só comentários horríveis tecidos em meu favor. eu tava correndo, estava bem, tinha um homem estatelado no chão, e as pessoas conseguiam encontrar um ponto de vista favorável a alguém. e pior, se identificavam comigo. como se fossemos parecidos. cheiro de pinga? ao menos tem um cheiro. eu não tinha cheiro de nada. eles também não. estavam convencidos sermos copartidários dos bons costumes. eu não cheiro a nada. poderiam dizer que eu vinha do escritório. que eu vinha duma reunião. que eu vinha da casa de minha mãe. que eu havia acabado de deixar o filho na escola. não cheirava a nada. se ao menos cheirasse cachorro quente, lixo hospitalar, carniça de boi, mas não,era inegável que aparentávamos o mesmo grau de normalidade comparado ao tiozinho. com um nojo pessoal irrecuperável intervi bem de leve.
- gente, eu to legal e eu quem tava muito rápido, com licença.
ver o mano de perto foi o mais foda. sua pele cor de sangue, ralados lhe desenhando feito um mapa. ossos apontavam para fora do braço, próximo ao cotuvelo e no punho. ele tava consciente, desesperado, rodeado de amigos que estavam dando um T ali na pracinha. a maioria morador de rua. outra falação na minha orelha.
- olha o que cê fez co meu amigo.
- e se ele ficar paraplégico?
- quebrou o carrinho todo, olha isso.
fingi que nem escutei.
- senhor, depois você me perdoa, agora a gente precisa ir na upa urgente.
- eu não to conseguindo andar.
- eu te ajudo.
- Shawlin?! cuida do meu carrinho?
- Cuido, cuido. confirmando com a cabeça o amigo do catador.
peguei-o no colo. uns amigos dele me ajudaram. coloquei no carro. e dois caras entraram juntos. um com ele no banco de trás e outro do meu lado na frente. arrastávamos em direção a UPA.
- ele ta com outro ferimento além do braço?
- precisa de mais? falou com uma voz de braveza com espanto.
- se ele ta perdendo muito sangue.
- ta perdendo muito sangue sim.
a conversa é sem jeito e a situação piora. o carro para faltando um quarteirão. do partida, uma, duas, três vezes e sem sinal de vida.
- vamo levar ele no colo.
ligo o alerta. a ideia era dividirmos o peso, mas os dois caras tavam tão louco que não davam conta nem de levantar o tiozin, muito menos de equilibra-lo andando. carreguei sozinho uma pessoa chorando um choro de dor exprimido e com constantes contrações no braço fudido. ele é leve, mas se meche demais e as feridas se fundiram ao seu cheiro de pinga nauseante a cada vez que eu o olhava. cansado passo na pela porta de entrada numa performance que pensei alguns segundos antes de cumprir.
- URGÊNCIA. URGÊNCIA. Um homem perdendo muito sangue!
mas ninguém fez muito além de olhar curioso o que acontecia. tive que atravessar mais uma porta para conseguir o efeito esperado. apareceu uma enfermeira. mais uma porta e ele esperaria no chão do corredor, juro.
- O que que você fez dessa vez seu Joaquim?!
- Eu atropelei ele, carrinho e a porra toda.
Ora, é claro, ele tem um nome. Joaquim. muito prazer, eu sou o antonio.
uma outra enfermeira chegou com a maca. descarreguei o Joaquim sobre.
- vão cuidar dele? meu carro ta abandonado na avenida.
- pode ir. esse aqui já é de casa.
esse aqui já é de casa? de que mais formas Joaquim já deu entrada na sua ficha do UPA? perna quebrada? costela quebrada? pneumonia? tuberculose? coma alcoólico? sífilis? Joaquim é visivelmente surrado, vai saber. e essa intimidade da enfermeira para chegar assediando ele mesmo sem saber se ele estaria vivo dali a dez minutos.entendo sobre manter a situação calma, sobre controle, outra coisa é ser um idiota falando bobagens. queria bater boca com ela, mas era besteira. ela cheirava a luva descartável e alcool em gel. o lugar cheirava a doença e eu não cheirava a nada.
é raro encontrar pessoas legais no acaso. nisso tudo quem menos me encheu o saco foi o seu Joaquim. que terá os próximos dias piores que o meu. que já teve a vida toda pior do que a minha.
e piora. giroflex ligado bem do lado do meu carro. dois homens fantasiados de protetores cívil rodavam uma lanterna para dentro dele fingindo resolver qualquer mistério que não existia. seguiam fielmente um roteiro sem câmeras. uma peça mal feita de realidade. o carro tava arregaçado, rodeado de entediados, e precisaria explicar o porque.
- Boa tarde?
- Boa noite. o carro é seu?
- já to ligando pro guincho.
- já ligamos?
- como?
- o que houve com o carro?
com o carro? bom, eu não sou mecânico. tampouco burro de dizer isso pro policia. acontece que estava vindo da direção da UPA, com ares funestos, todo ensaguentado. tá que o sangue não era meu, mas eles não sabiam.
- sofri um acidente na leste-oeste agorinha. um homem ficou ferido com urgência e trouxemos ele aqui pra UPA. mas o carro parou de funcionar uma quadra antes.
- o senhor quer dizer que atropelou um civíl na Leste-Oeste?
eu não queria dizer fosse o que fosse. tampouco escutar. onde estão os roubos de bicicleta? cadê as crianças fumando maconha na esquina? deve ter algum playboy pixando muro, rex, vai pegar e me deixa em paz.
- você bebeu?
- hoje não.
- hoje não? bebe muito?
- só quando não dirijo.
Larguei a bebida há treze anos e quatro meses.´parei depois de cagar muito no pal tomando vodka, cerveja, vinho, whisky. lembro que na época abri mão de tomar me considerando fraco pra bebida. agora acho que a bebida que é fraca pra mim. só atrapalha os movimentos da minha loucura. coisa de ego, me serve. vejo meus amigos bêbados, não conseguem andar, não conseguem falar, não conseguem pensar, e apesar de conseguirem se despir são péssimos trepando. fora o cheiro de podre e o jeito que rasgam grana. são Joaquins privilegiados. mas jamais diria isto praquele porco. seria categorizado de bom menino. o mendigo arrebenta meu carro e eu ainda venho trazer ele no hospital dentro do meu carro. tudo isso tomando um suquinho de laranja. O que vc tava ouvindo? Bruno Mars? Jota Quest?. já basta aqueles otários aglomerados me incluindo em suas subespécies. só me falta esses vermes também me patriarem.
Expliquei a porra toda duma forma que parecesse que o role já tivesse sido resolvido. atenciosamente sérios ouviram tudo o que eu disse. tomaram meu lado quando apenas quando descobriram que o atropelado foi um mendigo. (tive que falar sobre o carrinho de recicle). fizeram questão de dizer os favores que estavam me fazendo por me fazer perder só um pouco mais de uma hora lendo e assinando ao invés de tantas outras que poderiam me fazer perder.
O carro subiu no guincho. todos pararam pra ver. um guincho trabalhando é elegante. a traseira do caminhão levanta e conecta na rua. vira uma rampa pro celtinha sem frente servir de enfeite mecânico. é quase o transformers, ruim de briga, mas é bonito. apanhou prum carrinho de sucata. o giroflex amarelo sobrepondo o giroflex vermelho iam aparecendo com mais vida conforme o dia dava fuga. a cena hollyoodiana cheirava a óleo queimado. e os dois homens cheiram a cera e ódio. o caminhoneiro cheirava a graxa suada e eu não cheirava nada. e as primeiras estrelas começavam aparecer na direção da UEL.
novamente seres humanos me observando. dessa vez com pena. mereço.
- perderam o cú na minha cara?!
sou inofensivo mesmo. os policiais rindo vieram me liberar para pegar carona de caminhão.
- pode ir garotão. mais cuidado, viu o que pode acontecer.
- claro. muito obrigado pelo auxílio senhores. foi estranho tudo o que houve hoje. não sei o que seria sem a vossa ajuda. muito obrigado. posso fazer só um último pedido?
- o que?
- uma foto nossa.
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