encontro-me nesse ponto. minha dor se foi. o peso. não sinto. e antes não suportava. qualquer lembrança era exagerada. um tédio penoso, personalidade constrangida e um espírito derrotado. o passado era culpa de toneladas na consciência. Mas de uns seis meses pra cá mudei, uma resiliência repentina que se mantém. as intrigas que sobrecarregavam emocionalmente perderam efeito como uma realidade miserável que se torna indiferente aos que a tem no cotidiano.
Continuo pessimista. fumando demais. bebendo demais. invejoso. delimitado por muito espaço e com decepções arbitrárias, a forma de pensar é a mesma. não melhorei no sentido meritocrático da palavra. no máximo consigo abstrair ideias que antes me dominavam. sinto-me curado da ansiedade. aliviado feito quem descobre ou mata um deus.
qual é a pira do metamorfose mesmo? não lembro. mas estranho feito uma carapaça projetada em meus ossos este silêncio espiritual que tanto tentei simular com métodos mal compreendidos. um despertar preguiçoso, onde preciso atravessar uma avenida lotada antes de chegar ao banheiro, olhar no espelho e ser o último a reparar minha própria mudança bruta. meu sossego veio com roupas e cabelo próprio. escutando a música que for sem desespero.
pergunto à casa vazia e suja se é isso que é felicidade, porque espero que não. os lugares. os canais. os trabalhos estão piores que nunca, apesar da banalidade alegre. quase tudo se faz mais inútil como obras de arte.
se antes amava o mundo sexualmente, agora o amo como um parente alheio a mim. uma continuação fragmentada. um amor morno como o de anos e um ódio enfraquecido pela falta de serventia.
já me perguntei também, se enlouqueci, se saiu um demonio de mim, se eu desapaixonei de vez pela vida, se tem a ver com a era de aquário, com o golpe ou por ainda beber leite, pra saber porque essa aquietação me pertenceu assim duma hora pra outra. avanço com menos alma. uma parte que chora descansa em algum leito escondido.
aproveito as férias de mim mesmo fazendo o que sempre faço, mas em paz.
o contador das histórias que leio na rede bamba parece mais humano ultimamente, mais calmo, explica-me melhor os porquês de seus personagens que também tornaram pessoas comuns. o dia tem um ritmo estável, e se os passarinhos cantam é por fome ao invés de inspiração. empanturram-se de acerola e adubam o gramado, literalmente e em sentido figurado, na cagada. a rúcula leva poucas horas a menos que o rabanete para largar a semente e romper a terra rente as marcas de palitinho. é só gastar tempo olhando sem expectativa de nada e nada acontece mesmo. juro, nenhuma angústia. o céu tem incontáveis tons de azul como tem estrelas.
ainda assim eu precisaria delirar um pouco para ser feliz. tomar doses de infelicidade para a felicidade fazer efeito. e o que perdi, na verdade, foi a capacidade de sentir dor. não como o super-man recebendo uma pedrada nas costas, mas como um dedo queimado que perde a sensibilidade na ponta da pele.
as coisas que me fazem companhia são tristes como a realidade que só existe em nossa imaginação. vou assistindo meus rompimentos anestesiado pelo insight que nunca tive, enquanto minha projeção social segue amarrada em frases que eu disse com um sentido diferente do tomado. neste estado que estou o mais proxímo que sou de algo é a dúvida da farsa
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