A fome me arrastou da cama até a mercearia do Genesio. Marquei 4 pães na conta, desejei lhe um bom dia e fui retribuido. Nem esperei a água virar café e fui comendo o pão com manteiga. Ri quando olhei pro potinho lembrando das propagandas rídiculas da Qualy. É pra isso que serve a propaganda, para pensar somente nelas enquanto nos envenenamos. Relutei, não ri mais. Imaginei o maquinario incansável ordenando alguns milhares de ações humanas. Uma fábrica dividida em três turnos produzindo a manteiga. A linha de produção robótica encaixando perfeitamente pessoas em papeis de pobres homens atraves de receberem um salário mínimoe pouco tempo de vida. Anulam uma categoria, registram como auxiliar geral e deixa que se fodam com os carreiristas do sindicato. Uma fábrica tão escrupulosa a ponto de render até o soro que faz a manteiga. Nem aí pra Qualydade. Quer saber, não precisa imaginar se possuímos internet. A Qualy é da corporação BRF, também dona da Sadia e Perdigão. Claro, acumuladora de processos milionários, a maioria ações trabalhistas individuais e coletivas. Maus tratos, equipamentos não adequados, congelamento de salários, não pagamento de horas extras e infinito... Conheço bem o interior desses infernos, não aguentei muito tempo, nenhuma das vezes muito tempo apesar de ter parecido eternidades. Essa verdade a propaganda não mostra. Não aparece nas informações nutricionais.
Estou comendo um pão e tentando administrar minha imaginação porque a cozinha silente não impressiona. Não to cercado por uma familia que acordou disposta para seus médios afazeres me pedindo para lhes passar a manteiga como na proaganda. O café é amargo, gosto assim. A solidão também, porém, menos aprazível. Joguei a tv fora, agora os intervalos nao mentem, nem vende nada. Fico no repouso masserante duma realidade sem make up. Procurando um culpado encontrei o sentido da palavra hipocrisia mastigada em duas torradinhas num amanhecer tranquilo.
Meus irmãos a viver escondidos atras de uma mentira. Invisíveis como os pedreiros de Roma. Penso que acabei de dar o fim ultimo da margarina e tudo que se sabe sobre seu gosto vem de informações que só iluminam a equipe de marketing e o brasão do milionário. Enquanto ela permanece no pote ela não tem nem sequer uma origem. "Data de fabricacao e de validade" como se surgissem no ar pelo desejo do consumidor. Nenhuma ação nela empregada, desde a fábrica, está no passado, mas num presente estendido. Cada esforço somado não para um destino, mas para um fim. se não tem fim, se ninguém come, se o produto não vende, regredimos no tempo até a eliminação total do produto. Ele não existe mais, evapora. Junto com todos os planos de vida dos baixos assalariados. Confiamos ingenuamente na linearidade do tempo. Passado, presente e futuro sem questionar. (Mas tudo é invenção). Agora isso parece tão claro, essa divisão do tempo tão absurda. Separar passado do presente como se fossem cenas cortadas como nos filmes. Dizem que não podemos controlar nosso passado, mas agora vejo que os dominantes do mundo estão brincando com ele. E de roma só se diz da grandiosidade intelectual. Sinto minha memória transcendendo, trocando remorsos por responsabilidades. Posso ver uma trajetória contínua onde antes era feito de uma fumaça densa que causava tontura. Pra que a busca de um sentido na vida se eu posso entende-lá? E a noção de futuro? Um espaço vazio de descontração do cérebro onde enfeitamos o mármore intempérie da nossa sepultura com um belo epitáfio. Passado? No máximo esses pensamentos vagos que também somem no ar. Que viagem.
Apertei um baseado para aliviar a loucura da sanidade. Como fazem para merda ter gosto e aparência de margarina com sal? Quando era pequeno achava que Qualy era uma manteiga chique. Hoje acho que aquela aviador é a playba. Sei lá também se presta ou não. Pode ser outra ilusão de temporalidade. Dentro da bolha sou como um doente de Alzheimer. Lembro perfeitamente dos dentes brancos do paizão daquela família feliz tomando seu café da manhã numa mesa farta. O close na mordida do pão com margarina. Do Slogan. Do mascote. E prepotente que sou me sinto capaz de ridicularizá-los enquanto limpo os farelos de pão sobre a bermuda suja. Então, revido novamente como quem nada no raso, tento lembrar do sofrimento animal, dos impactos ao meio ambiente, do crescimento da desigualdade social, o monopólio, a psicometria, corporações com saldo maior que o PIB de 80% dos países...
Nenhum comentário:
Postar um comentário