E pensar que foi minha melhor opção. Deixar dez reais na portaria para estar dentro. Pagar por expectativas e carregá-las como fichas de jogo. Porém sem fichas para ostentar, fantasio-me e passeio à vista. Vejo vários grupos fantasiados e a partir disso consigo imaginar mais ou menos o que os agrada. Sem certeza. Os que encaro, forçado pelo aperto do corredor de entrada, nenhum já é amigo. Talvez nenhum será, talvez eu não interesse a ninguém vestido assim, vai ver já tenham suas curiosidade delimitadas por outra espécie de líbido que não a minha. Rostos desconhecidos só as vezes são receptivos. Tem a ver com aparência, com o que aparece. Sem muito incômodo penso que foi um engano. Procuro conforto, como não tem sofá, na fila de cerveja. É como se a postura só encaixasse com um litrão e um copo em mãos. Acho que se Neil Armstrong tivesse uma latinha, quando pisasse na lua, faria uma caminhada tranquila, teria calma para sentar numa rocha e, dali, olharia a Terra sem constrangimento, assim como eu olho pra festa dum canto da terceira sala.
Sei que ta sinistro por não estar forte para mim mesmo. Rejeitei minha companhia, estava insuportável. Aqui, bom, é outro tipo de solidão. Numa festa ficar parado também é agir. Quando acabar poderei dizer que fui a festa. Em casa não. Se eu tivesse realmente interessado em mim, sim, a solidão seria um playground. Mas sem esse apetite pessoal sinto meu rosto ofuscado por qualquer alegria. Não me intimido por saber que eles não reparam. Apenas passam e esbarram como se tu fosse mais um móvel do rolê. E o pior é que era mais ou menos isso que eu planejei para ficar bem. Tudo está no conforme.
Adaptado, faço a de sempre pra conversar com alguém. Vou ao fumódromo e peço um isqueiro a outro solitário e permaneço perto pelo menos até o cigarro acabar. Só pra passar o tempo. Estendeu-me o bic amarelo. Ergueu as sobrancelhas e me serviu um sorriso chapado. [Da hora esse DJ, né?] Foi quando reparei na música. [primeira vez que escuto] Era possível ser a décima e não faria diferença. [Ele toca só funkzera, blackzera. Porra mano, siniiistro. Vai tocar James Brown, tu vai ver. Várias pedrada] [ai sim] [prazer, Eduardo] Estendendo-me a mesma mão, agora sem acendedor. [Rodrigo] [Várias gatas] ... ... [Acabou meu cigarro, a gente se vê por ai Edu]. Eu podia não conhecer o DJ, mas sabia exatamente o que iria tocar. O flyer da festa anuncia o estilo musical e a forma das pessoas anuncia o entojo dos gostos. Se eu for convidado para um samba e quiser saber se vai tocar Chico Buarque ou katinguele basta reparar nas pessoas. Aqui temos a elite cultural resgatando a era de ouro da Disco com suas roupas floridas cor de novas. Quando toca uma música que representa um valor de raridade, de posse cultural, o salão inteiro grita para demonstrar que conhece aquela. Realmente, sonzera, então sei bem porque estou aqui. Não sei é sobre como estou.
O copo esvazia e atrapalha meus primeiros passos de dança. Curtos, tímidos, quase só imaginados. Gosto desse ensaio. Empolgo e minha imagem extremamente bebada começa a parecer uma ideia deliciosa.Debruço-me sobre o balcão olhando a lista de bebidas com a gana de alguém que vai escolher o almoço de domingo e depois de se decidir ainda quer escolher a peça que vai levar. [o seu?][conhaque. Duplo. Não, dois. Um eu quero virar e o outro levar]. Dei o primeiro gole e o amargo insano me trouxe o primeiro riso interno do dia. Assistindo uma pegadinha em que eu era quem caía. Entesei, virei o outro copo. O barman ficou me olhando como se tivesse sido feito de trouxa. [não resisti. Me vê um litrão também, por favor].
Voltei para o salão já entendendo o idioma dos animais. Olhando para todos os olhos procurando reflexo. Umas duas correspondências, acho. Com um litrão para camuflar minha falta de jeito tenho tempo para ver o contexto das duas. Ambas brancas e repetiam a beleza extrema do comum. Não podia imaginar nada que nos unisse se eu precisasse. Mas não precisa, existe uma ponte sólida entre nosso olhar construída por desejo que basta atravessar. Enquanto calculava e dançava com a liberdade da estabanação, uma outra, bem diferente, começou a dançar toda doida na minha frente. Taquei um beijo na boca dela. Ela me sugou como se fossemos trepar ali mesmo, sem preliminares. Só alcançamos a parede para nos apoiar. Gastamos uma meia hora nisso. Usamos uns quatro metros da parede espelhada. O alcool dos hálitos era doce e eu só pensava na maravilha que é trepar bebado. Pedi respiro pra buscar outra cerveja. Quando voltei ela já estava com outro cara. Culpei a bebida dela. Culpei o mano e a mim. As outras duas pontes ruíram. Só havia flashs de slowmotion e raios coloridos conectando em mim. E a batida do grave não era da mesma velocidade do coração.
Voltei pro fumódromo e o Eduardo estava lá outra vez para me emprestar o Isqueiro. Dessa vez rodeado por amigos ou sei lá. O fumódromo abarrotado de gente. Todos conversando conversas de bebados com seus sorrisos frágeis. Mentira, alguns faziam uma cara de drama mais pesadas do que a própria fala, mais que a própria informação. O cigarro me bateu errado, ou o conhaque, ou a cerveja, ou a solidão. Não era tarde nem cedo. Estava bebado suficiente para não sofrer sozinho e por isso resolvi ir embora como um aluno que entrega sua tarefa de casa pra professora. Sem ninguém para me despedir sai como um rato.
Sair foi como mergulhar no mar. De repente o silencio te engole. Era como se tivesse devolvido minha personalidade na saída. A mania de achar, achei uma bosta, mas de boa, como o planejado. Tudo era esperado. A cobrança para entrar. A bebida cara. As pessoas esnobes. A bebedeira. Minha introspecção. A bad. O flanelinha. Eu sabia de tudo. Com frequência conheço novos lugares e isso não passa de uma repetição. Ao mesmo tempo que consigo ir pela milésima vez ao local de sempre e isto ser uma experiência inédita. Tem pessoas que fazem milhões de coisas e nunca saberão do gosto da novidade. Sabia menos o que aconteceria se eu ficasse em casa e exatamente isto que me espantou e expulsou de lá. Daqui, chego.
Tudo no mesmo lugar que deixei. Desvio de tudo sem precisar olhar e desabo na cama. O gosto da louca ficou na minha boca e na roupa seu cheiro. Senti a falta dela que nem sei o nome, nem a voz. Uma saudade com a validade da chapação. Mas tudo bem. Guardado num ninho todo meu. Salvo até amanhã.
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