Chegou cansada. Atrasada. A autoridade intimou-a. aproximou lentamente de mãos no bolso, peito estufado e olhar cravado no dela. [to com cólica][porque não ligou?] [eu vim] [é a terceira esse mês] quando os funcionários atrasam Antonio sempre olha na lista de atrasos antes de resmungar. O número três lhe é significativo. A repreensão se faz necessária pela ordem. Advertência verbal para início de agressão. A cena repetindo passamos para a advertência escrita. Com três dessas qualquer um pode ser dispensado por justa causa. [A próxima é advertência] [mas eu to com cólica] [pegasse atestado].
Uma companheira lhe oferece remédio. [tomei antes de vir, obrigada]. Acontece mais cinco minutos de silêncio em respeito ao constrangimento de Cintia até Helena puxar um Nego do Borel. Lúcia e Edilaine riem. [essa é animada].
- Hoje é porco de novo? Não era escondidinho de frango?
- É bonita, ta feia a coisa. Ontem sobrou demais que deu pra hoje. To achando até que esse tanto vai sobrar de novo.
- Acha que eu vou ser mandada embora?
- Não sei, mas se eu fosse você não atrasava mais não.
Se o movimento cai, o patrão procura formas de cortar gastos. Demitir é uma opção, porém tem seu custo. Por justa causa não. É grátis. Então o rigor aumenta com o argumento de que o baixo rendimento é culpa dos funcionários, pois se cumprissem a risca todas as instruções de trabalho o restaurante estaria bem. Ele surge de seu polo classic bege, reúne todos os funcionários ao fim do expediente, ainda depois que já bateram o ponto de saída, para dizer que a empresa será mais exigente para recuperar a freguesia. Cada transgressão é guardada. Não queira chegar a três.
Cintia não liderava a lista de advertências. Joana já tinha uma escrita por mexer no celular durante o horário de serviço. Ela estava em direção ao banheiro olhando mensagens. Na volta do banheiro a advertência já estava formulada por Antônio e com um xis indicando onde ela assinaria.
A funcionária Joana Mendes foi ao banheiro para usar o celular escondido durante o horário de trabalho.
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- Ta loco? Se eu mexesse escondido você não ia ter visto. Só olhei porque dava tempo.
Antonio só lhe entregou a caneta e esperou assinar. Putassa, mas assinou. Poucos minutos depois podiam ver Antônio rindo pro celular. A todo minuto podia ve-lo com o celular. [desaforo] esbravejavam.
Naquele dia Joana chegou em casa chorando. Seu marido foi saber o que houve. Então ela falou da advertência. Joana tem 55 anos e ele 61. Só ela se adaptou a celular. Paulo não sabia nem fazer uma ligação do aparelho dela. Desbloquear a tela jamais. Ele demonizou a tecnologia por muito tempo como qualquer outro velho não adepto, mas ela sempre põe vídeos de construções para ele assistir que ele adora, ou de pesca. Agora quando ele precisa mandar um recado pra alguém, manda por audio porque odeia ligações. Tudo intermediado pela esposa. Ainda assim não conseguiu entender como Joana, uma senhora, tomou advertência por mexer no celular. Ele fechou a cara. Obrigou-a a mostrar todas as conversas. [Vai tomar no teu cú. Ta pensando que to de paquera no zap? Falando com as nossas filhas e com a Lurdes, seu véio imbecíl. Cada coisa que cê pensa. Parece que bebe]. De quebra ela nunca mais o ajudou com o celular. [Deixa eu falar um negócio pro Cisso?] [Celular não é só pra besteira? Coisa importante também?] [Eita mulher ignorante].
Chefe de cozinha à oito anos naquele restaurante ela sabe que se for mandada embora seu acerto dará uma bufunfa. Por isso mesmo seria dispensada apenas por trapassa. Mesmo com uma mão mágica para temperar carnes e fazer o barato ser delicioso não conseguiria emprego igual em outro restaurante sem diploma e nessa idade. Esperava doloridamente sua aposentadoria dentro daquela cozinha enorme e fervilhante. Sonhava em montar uma cozinha bem mais inteligente que aquela na sua casa para fazer marmitex quando se aposentasse. Colocaria o filho que ta desempregado para entregar e a filha que ta desempregada para ajudá-la na cozinha. Se desse certo chamaria uma outra amiga também. Joana se importa menos das condições e prioriza estar cercada de pessoas especiais. Mas ainda faltava quatro anos e cada ano tem vindo pior que o anterior.
Cintia mexia a contra gosto o creme de milho. A rotação da colher de pau doía como punhaladas ferindo a própria carne quando o que gostaria de esfaquear era a cara do patrão que, na verdade, beneficiava-se do giro da colher de pau. Lucrava ausente. Oprimia ausente. Um deus que só existe para receber graças.
Além do patrão, também odeia o gerente. Ele é casado e já a convidou para sair umas vezes. Sempre a chama de docinho quando ela vai fazer uma reclamação sobre as condições da cozinha. Elogia qualquer penduricalho, qualquer brilho em blusinha. Batom ou cabelo pranchado é pior. O disgraçado acredita que ela se veste bem é porque quer ouvir ou porque tem um esquema. E geralmente é porque tem que ir no centro pagar ou comprar algo. No médico. Nas reuniões do filho na escola.
Mãe solteira que agora está namorando. Uma leoa que sabe sorrir sendo ameaçada por um playboy que não deve saber limpar o próprio toba. Ah se essa colher de pau fosse um machado. A próxima cabeça a rodar não seria metafórica.
Antônio não é o proprietário. Antônio é uma espécie de Moisés pós-êxodo. Um mensageiro que cria regras. Temendo seu posto. Temendo voltar à linha de produção. Vê os números cruéis com o pobre restaurante. Pessoas montando disk entrega dentro de suas casas, trabalhando ao invés de contratar, matando os custos e oferecendo uma comida melhor e mais em conta que a sua. Sem contar o shopping que abriu não longe. Fregueses antigos migram pro disk e pessoas de passagem preferem andar um pouco mais até o shopping. Antônio via claramente no que isso iria dar. Também não tinha formação, sua experiência era dum negócio próprio que não deu certo. Mas o proprietário o escolheu por pagar menos do que pagaria a alguém cursado. Temia só restar restaurantes que exigem a porra de um certificado e empregos como garçom, auxiliar de cozinha ou motoboy. Trabalhar o dobro para ganhar metade. Sua ultíma jogada, antes do xeque-mate, será eliminar o máximo de funcionários possíveis sem prejuízo e montar uma equipe para pouco público e trocar o estilo de restaurante para um espaço que venda salgadinhos ou doces. Ele continuaria ali com a bunda no caixa e mandando no seu território. É possível, mas não é tão fácil demitir quatro ou cinco funcionários por justa causa. Não sem o máximo de filhadaputagem. Tem uma luta sangrenta pela frente.
Sinclair é o proprietário. Não vê a hora de vender essa merda seja lá para quem e investir em ações. Sonha em subir de nível.
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