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sábado, 29 de setembro de 2018

Samkhya Volúvel

parei um segundo para olhar o grafitte [Tudo o que existe ta aí. O que você quer?]. Se eu não tivesse sido assaltado a reflexão se diluiria em uma foto compartilhada no insta, com certeza. Pararia de pensar na significância da frase só para me envaidecer. como se tivesse EU pensado e levantando a questão. apropriação nosense, mas comparando com o lucro benefício que traz ao ego da pra passar um pano. todo mundo faz. varias gente bonita me likeando, posso imaginar. respostas imediata. estimulos na glande pineal. de que me vale mais uma questão filosófica macerante? caralho, vale a porra de uma resposta. uma questão nada serve sem resposta. talvez ganhar a atenção de alguns. mas não ta teno celular. e agora, tudo o que existe ta ai. O proprio muro é por existir que fizeram algo dele. arte reflexiva ou expositiva. tem os dois efeitos. infinitos efeitos, o feito que eu quiser, tanto faz. não tanto faz. ainda sobra a pergunta. o que você quer? sem essa de felicidade. felicidade não existe ou então grafitaríamos por cima dela quando insossa. O que existe é a cidade com muros de repartição, calçadas de contenção, ruas fluidas e pessoas para serem assaltadas e repararem nos grafites. o que eu quero?
Claro que a sensação em busca é a de conforto, muito confundida, tolamente, com a ideia de felicidade. me pergunto a que custo. o que eu quero é um lugar calmo para fazer muito pouco do que a sociedade cobra. liberar uns instintos sem pudor. perder a referência social e me parecer cada vez menos com eles. Mas isto não está ai. não existe. é uma mentira, por isso é belo. por isso remete a uma expressão contente. uma imaginação de gozo. posso não querer nada, mas seria perca de tempo. quero laciar as tensões do pensamento. ficar louco é mais fácil que ser feliz. existe um pé de limão com limões no rumo de casa e em casa metade duma cachaça. não tenho dinheiro. preciso me conter com o que tenho. ou pelo menos é o que eu acho que a parede tentava me dizer. chapar de caipirinha. 
Pensando bem. o que existe é muita coisa. as mesmas para todos. mas não adianta elas existirem sem acesso. E por isso as propagandas se parecem tanto com o ideal de felicidade. porque nunca teremos. tampouco teremos essa solidão inspiradora que burgueses atingem com um gato, internet e a chave de 30 metros quadrados. existem opções de crime, existem leis inúteis e existem penas rigorosas. a possibilidade faz o ladrão. essa é velha. mas sério, só a oportunidade inventa. o ladrão já foi preparado como um pombo correio. poucos tem a chance de saber mais do que acreditar. a maioria delira a deriva da opressão, respirando privilégio e ofegando falacias. tanto faz o que sobra. sobra só o narrador na cabeça lhe prestando qualquer nota de repúdio ou congratulações. será sempre um delírio, seja íntimo ou coletivo, da parede egípicia ao veda. não existe razão emocional. 
quero esquecê-la. ou perguntar-lhe o que ela quer dentro do que há. quero uma reposta, assim como a questão exige. mas o mundo de hoje é liquido e a evasão corriqueira. as pessoas somem bem na sua frente. eles existem mesmo ou é apenas uma personificação forçada daquela felicidade abstrata? eles estão com medo de serem eles mesmos. de se perguntarem o que quer. de olhar em volta e constatar que há muito pouco a se querer, além de uma eterna promessa do belo, alguns grafittes a se fotografar com umas nuvens de fundo. mentira, há tantas opções, tão pouco tempo. a verdade se acha no atacado no corredor de bebidas. as bebidas e suas promessas. as prateleiras e seus valores. o consumismo nos infiltrou a tal ponto que vai além das ações dinheiristas, está a um nível de consciencia, de concentração, um descontrole, uma importância exagerada a banalidade das coisas.
Eu também sou um ciborgue. perdi o celular, sobrou o notebook. confiro-o antes de preparar minha caipira. a foto mais linda que vejo me ofende. parece que o tempo de se arrumar, tirar foto, filtrá-la e postar no instagram é mais importante do que o de me responder. sou pequeno como um micróbio desapercebido. de novo essa tática de congelamento. sempre funciona, a gente saca que já era e cedo ou tarde para de correr atrás. a pessoa nem perde tempo com dor de cabeça. feito quem pra matar gato afogado precisa escondê-lo dentro dum saco. Mas é só uma metáfora. a gente não morre, a certeza não vem e a duvida gera efeito diminuto no relógio. dilacerando aos poucos a historinha intima de romeu e julieta. ofendido pela rotina básica de alguém que se limita a compartilhar com todos e ninguém. sobrando apenas um palhaço no escuro quase total a não ser pelo notebook. palhaço, afinal, nem deveria estar pensando nisso. há traumas necessários. mas o analfabeto de entre-linhas humanas folhea as paginas secas do autor de bosta provisóriamente indicado. e olhando as fotos dela se arrumando pra sair. vontade de esmiuçar o colar que lhe fiz. vontade de chorar. culpa da caipirinha. e outra vontade maior de conter o choro. não jogue pérola aos porcos, meu irmão, joga likes. também tenho raiva que, na real, só é mais uma posse abstrata e ínutil, impalpável e nada posso construir dela. um garrancho de ansiedade escrevendo uma derrota sobre a imaginação apressada. eu tinha planejado tão bem. Vejam, tudo está tão limpo e não deixei que faltasse nada hoje. alguém faz planos para as emoções? o que sentir as 20h? provavelmente planeja se distrair. como disse, o conforto. somos tão idiotas que as vezes nem isso conseguimos. imagens de felicidade alheia se assemelham com uma que já foi minha e outra que quase foi. e os boatos do mundo carrega qualquer coisa de pessoal. mas se pode diminuir o brilho da tela. gelar umas latas. revisar umas listas. fazer uma ótima escolha. tão fácil que sofrer é umas das coisas mais gostosas de hoje em dia. mas o delirio tem seu preço. só é possível tê-lo velado. no discurso do querer o objeto sempre estará oculto. tomar a cerveja, assistir a comédia, ler um romance, ofender os outros, motivos tão vulneráveis que as vezes não basta para nos dopar. e para onde olhar terá uma falta. o que eu quero? 
A capirinha ou a visão da falta mais o alucinado na minha cabeça me fazem uma pessoa pior hoje. arriscando-me mais do que tentando sacar de qualé do jogo. mapeando falas para pontuar as repetições e os desvios para assimilar, e, quem sabe assim ler o implicito. mas é impossivel saber o que as pessoas querem. no maximo descubro o que eu quero desesperadamente com esses tentos. ou sobre o que tem me vitimado. esmagado ao peso duma gravidade virtual. que merda, não deveria existir. é ridicula, ela que pinta o meu nariz de vermelho, meu rosto de branco e coloca uma tela espelhada para nos constranger. eu só quero a mentira que inventei. se é para tentar entender o que quero, só posso querer estar mal. a dor sempre é o ultimo elo. por isso nos apegamos a ela. e a linguagem viciada torna isso terrível em minha cabeça. e o computador não para de alternar comparações. todos estímulos decepcionam. eu queria ser capaz de guardar toda a tormenta dentro do meu maço de cigarro. eu queria ter entendido o que swami vivekananda entendeu. o que eu quero não ta ai! Nem metade do que existe ta ai! A imaginação humana é a maior construtora do universo. faz mundos complexos sem a necessidade de matéria. da personalidade ao inanimado e ama sua criação. mas quando nossa função se resume a escolher fora de perigo perdemos o interesse no deleite. é como se a falta da dor desnivelasse o contentamento do bom. mas o pouco não basta. então o pouco é repetido diversas vezes com imagens e sons e formas diferentes. sustentada pela intenção subliminar. isso esconde tantos medos. só sei o que não quero e talvez é tudo que existe. dispensaria todos os ecos em meus tímpanos que trazem de longe uma vontade de alcançar o além. 
não quero essa cabeça metida a Sherlock burro, amaldiçoando inocentes virtuais. ouvi falar de um truque para ansiedade. vai contra as novas ideias de auto-prioridade. na real, acho que se colocar em primeiro plano é letal para alguém ansioso. o que é quase todos. não creio em plenitude e pouco menos que isso já é angústia. porém o meu conselho é para você ficar bem. NUNCA PENSE EM COMO VOCÊ SE SENTE. exercicio imaginativo de inventar peças e encaixá-las no espaço vazio. cegueira dolorida demais por uma pergunta sem resposta. é como se nos transformassemos num buraco negro sugando todas as possibilidades para o centro. todo envolvendo o eu. negativas ou positivas, tanto faz. está se estimulando de imaginação. se estourar faz que nem balão que só sobra carcaça. isso não é nos priorizar, isso é nos absolver. é o diabo do ateu com auto-estima. e o saúdavel seria o contrário. absolver tudo ao redor assim que sentir a primeira respiração profunda e involuntária. assim que os dedos perderem o controle e os olhos só verem horas. tentar reparar se há alguém com movimento semelhantes. identifique-se fora de si. pense em como chegaram ali. se foi necessário. se está no banco, há motivos específicos, se na padaria outros, será que todos estão com fome e endividados? ou todos estão sofrendo? meça-os e aos poucos vá se evacuando de si mesmo. chegue à mobilia. às frases na parede. nisso já estará se sentindo bem, mas a parte boa é a própria fluidez de não pensar em si que traz. Reparar de verdade no redor lhe causa o desejo de intervir. seja para se levantar pra senhora no onibus ou atravessar a rua se ver um homem vindo em sua direção. mas nunca pense em si. tem operado milagres em mim. é como se eu realmente sentisse o chão e pudesse sentir a naturalidade que o tempo o anda. sem a necessidade de felicidade. sem a necessidade de se dizer o que busca, ou pior, de um computador ou os impulsos por trás deles nos diga.
claro que somos mais distraídos que civilizados. e isto parece um tratamento custoso. então as vezes relaxo a atenção e experimento ser levado até o limite da dor mesmo. até aos acasos. as desventuras e o espanto. procuro me perder e, então sim, experimento da felicidade como quem da uma bola. felicidade é escolher o que eu queremos consequentemente sem nos dar por isso.

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