Sem seda tava foda. 30 grama do madeira e nenhum papel pra enrolar. Queria parar em Moçambique, mas fiquei olhando as nuvens se esfregar nas montanhas e passei reto, parei no terminal de castanheiras. Sem nada pra fazer e ninguém pra cobrar, nasci ali. O mundo era novidade. Tinha fome. "Algum salgado sem carne?" Engoli um risolis de queijo. Abri o google maps e jurere internacional tava pertinho. *porque não?* No mundo real foi outra coisa. Peguei dois busao. Uns minuto num, mais vinte nuotro. Dessa vez, na mira, só construções, uma ou outra paisagem. Havia praias mais perto, fui em jurere por ser lugar playboy memo. Se playboy gosta deve ser bom. Não sei se sou mais curioso ou entediado.
Cheguei na caralha me sentindo dentro dum condomínio fechado. Era como se não estivesse a lazer, mas à serviço. Mansões, carros de luxo, e descobri de onde a palavra gourmet foi pirateada. Até na calçada dava dó de pisar. Precisava dum posto, duma seda e só via casa monstra. Jardim é a buceta sem clitóris, aqui é vidraça na escultura. Gringuisse inavistável. Imaginava a riqueza tudo errado. Com perdão da palavra, desci uma "viela" e nasci na famosa praia. Minhas lembranças de jurere são do domingo legal com gugu, do panico na tv, de conversas de pobre sonhando alto. Referencias esquisitas para quem passa o verão aqui. Prum milionário na relax.
Não é atoa que a miseria alheia é abstraida. Incontável o tanto de iate sobre o mar calmo e quente. Suas ondas pareciam com as de uma piscina.
Vi uma areia coberta de sombras lá longe. Perfeito pra queimar meu verde. Fui de quiosque em quiosque procurando sedanapo, mas só tinha guardanapo de papel, rolo dupla face. Imprestaveis pra bolaçao. Comprei uma e outra breja. Pedia seda, mas os rosas só tinham a cara de merda e falavam espanhol. Sem referências reais, sentia-me na novela. "Massagem?". Fodasse, fumo na folha de caderno onde escreveria se nao tivesse esquecido a caneta. Cheguei de baixo das árvores e ja tinha dois maluco portando uma vela de respeito. Também sem seda, ou pal no cu. Pedi licença pra ficar na sombra e bolei um charuto maior que o deles no arial memo. Os dois sabiam conversar. Sarristas, discretos comentavam tudo que acontecia. As vezes me perguntavam, gostei deles.
Uma hora trocaram ideia sobre um doce foda. Cresci o olho.
"Licença ai irmão, ta fácil esse doce?" "Pra agora se tu quiser. Fica numa barraquinha ali do outro lado"
"Quero, quanto?"
"30"
Continuaram a ideia até um tomar rumo. Então puxei.
-to pensando aqui, irmao. Acho que cai na praia errada. Não tem um mercado pra mim comprar uma fruta. Nem posto pra comprar seda.
- Tu ta no lugar mais certo que podia. Aqui é jurere, fei. Tem mercado e posto logo ali. Onde tu vai acha uma sombra dessa pra fumar vendo tanta mulher gata. Só em jurere.
-quando tiver na disposição de buscar o quadrado da um toque pra gente colar. Vou querer essa parada sim. Brisar na jurere
-malandro não da toque. Da salve.
"Malandro arrasta" pensei. Maninho chapado, desandou a falar de guerra de facção. Pcc vs pgc.
"O que significa pgc?" Perguntei. Pensou um pouco e calou.
Deve ser alguma coisa catarinense, conclui sozinho.
"Vamo la na barraquinha do mano ou quer só lançar a moeda?"
Não sou vacilão, fomos juntos na função. Meus 30g era pra ser 50 se não fosse um chute memorável pra não cair de novo. Gelei meu beck na metade. Ja tava alumbrado. Legal.
O muleque conhecia todos que trabalhavam na praia. Foi massa andar com ele. Contava historias do lugar.
- fei, ta vendo aquele banana bolt ali? Trampei la por 7 anos.
- agora tu trampa naquele hotelzinho que comprimentou uns caras?
- trabalhar? Somos uma familia, fei. Se quer as coisas tem que fazer acontecer.
- tu é otimista, mas não irrita que nem a maioria.
- se você tem um sorriso na cara, fei, tem uma chave na mão. Essa chave abre qualquer porta.
- e num é?! Agora mesmo nos trombamos e vou pegar esse doce contigo. Só constrói. Quer meiotinha do doce?
- se tu quiser me apoiar.
- claro. Ta fazendo meu role acontecer.
Chegando num desses quiosques, esperei meio perto, meio longe. 15 minutos e ele volta com os 30 reais na mão e uma cara de decepção . A companheira do trafica tava trampando também e de zoio gordo nas presepadas do maluco. Não rolou. Quis ir no banheiro, marcamos de nos trombar na mesma sombra. O banheiro químico daquela praia era mais limpo do que os de restaurantes.
Voltei pensando na firmezisse do maninho. Não pelo corre, mas o otimismo dele. Os trabalhadores que ele cumprimentou pareciam ter a mesma vibe. A vida parecia menos dura e dessa vez não era um playboy me dizendo. Tudo é questão de ponto de vista. Do ponto que está e para onde se olha. Sou péssimo por ficar beijando merda.
Quase de volta escuto vozes
"Fei" O maninho numa bike
"Posso te fazer uma proposta indecente?"
"Hum"
"Tu cheira um pó"
"Opa"
"Lança aqueles 30, coloco 20 e a gente pega uma galo"
"Só vai muleque"
Lancei a moeda. Ele partiu e voltei pra outra metade do beck. Aproveitei a brisa e mergulhei naquela piscina chamada Atlântico. Estava decidido que dali em diante olharia as coisas de uma forma diferente. O sorriso não garanto, mas as reclamações iriam cessar feito as ondas daquela praia.
Já tinha passado mais de meia hora.
correria não é circular que com certeza passa novamente. Não estou
no ponto de ônibus "quanto mais espero menos tenho que esperar". Uma hora e fui me sentindo um otario. Tomara que ele tenha morrido porque odeio desconfiar de alguém tão querido. Esperei tanto que dormi na sombra, acordei no sol. Torrado. Devo ter fritado umas três horas. E nada do filho da puta.
Com 30 reais a menos fui caçar o mercado. Achei. Frutas, bolachas e brejas. Não queira saber como a patente fica.
Aquele maldito não estragaria meu role. O que mais me incomodou foi ele ter pensado que eu era mais um boy. Fodasse. Voltei pra minha boa sombra. Pro mergulho. Pra maconha. Pra comida. Quem é maluco de reclamar aqui? Nem precisa de filosofia. Eu era vida. Que folga!
As praias do sul da ilha também eram lindas. O que não tinha experimentado ainda era a solidão paradisíaca. Noutros lugares a gente sempre se arruma com um humilde, assim como tava fazendo com o maninho antes dele ver uma oportunidade. Os ricos conversavam entre eles. Eu brincava de descansar, de mergulhador, de aventureiro e de milionário. Até escolhi uma lancha pra mim, claro, a maior. Permiti-me delirar. Andava surrado demais. Trabalhando 12, 13, 15 horas por dia. Não ia ser num dia que ia armar a revolução. Necessitava dum relax. Na melhor sombra da praia mais chique. Tão boa que fiquei lá até as 17h. O maninho não imaginou que eu duraria tanto ali. E passou por la no maior rolezao de bike.
-o maluco! Vem ca!
Ele parou a bike e ficou me olhando meio paralisado.
-to indo la, man.
Nem de fei ele me chamava. Tava em choque.
-ta indo a caceta. Vem aqui.
-to indo, aguenta 5 minutos.
Levantei. Segurei o guidão.
-da meus 30.
- vo la vei. Vc ta ligado como é função.
- mano. Tu ta me roubando na cara dura. Trampo que nem burro pra tomar cerveja, não pra doar pra filha da puta linguarudo.
Ele foi esperto demais. E eu troxa demais. Isso sim
- porque você ta de mão fechada?
Tava apenas segurando um plastiquinho.
- mano. Se tu não der minha grana eu levo tua bike e teu óculos, além de rachar teu côco na mãozada.
Nessa foi aproximando um magrelinho. Só o pó da carcaça.
- eae fei, algum problema?
Pensei em bater nos dois. Confesso que entre imaginações de riqueza, imaginei mil formas de arrebentar a cara dele. Tava tudo fresquinho na cuca. Ia socar os dois.
- tenho, mas não é contigo ainda.
- aí ó. O jao vai ficar esperando aqui com tu. Não tem erro. 5 minutos.
Pedi pra ser enganado de novo. Sabia que ele já nem tinha mais a grana. Pensei em pegar a parada e cair fora. Aceitei. O jao ficou. Não trocamos uma palavra e o maninho voltou. Encosta nas pedras ali. Fomos entrando no meio do mato e ele procurando algo por todo lado.
- será que tem alguma panelinha aqui?
O jao também começou procurar.
- Achei uma boa.
Era o fundo de uma latinha. Dai ele colocou um baita pedaço de crack, um pouco de água e ficou isqueirando. Desacreditei. O magrelinho talvez. Mas o maninho gente fina que olhava o mundo com bons olhos e ganhava dinheiro na lábia, noiado? Merda.
- essa merda não é de cheirar.
- fei, isso aqui é uma droga mais forte.
- eu sei que merda é essa. Não to acreditando que perdi meu dinheiro prum noia.
Sério. Ser assaltado só na ideia ja é uma bosta, mas se fosse que fosse por um profissional. Não um noiado tagarela.
Terminou de arrumar a pedra. Preparou o cachimbo. O jao ria de mim.
- nunca fumou isso não? Duvido. Vai dizer que nunca?
- tenho cara de noiado que nem você?
O maninho preparou três e guardou a muca maior no tronco de árvore. Parecia tenso. Perguntava dum neguinho. Que tinha esperar neguin. Fui tensionando também. Aquilo podia bem ser uma armadilha. Pelo menos estava em jurere, não estava na cracolandia. Um soco e três passos me livrava de qualquer encrenca. Maninho deu uma bola e disse que ia ver se achava o neguin rapidin. O outro deu uma bola e foi ver também. Abraço pra quem fica. Dei uma bola, agarrei a muca e jurere nunca mais me viu.
Nem bateu nada. Nem fumei direito, mas ainda tinha um pedaço grande. Não queria fumar pedra. Peguei pra não sair no prejuízo. Pra não desperdiçar, joguei tudo num beck só, escolhi o alto dum pico que dava para mirar a lagoa da Conceição inteira. Acendi. A lagoa tremeu. O maninho tava certo. Só o que vale a pena é um sorriso na cara.
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